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A implosão do capitalismo monopólico – de Márcia Denser

A implosão do capitalismo monopólico

“A famosa entrevista de Samir Amin, onde ele faz uma análise geopolítica e anuncia a implosão do capitalismo monopólico generalizado imposto pela trinca EUA-Europa-Japão”

por Márcia Denser | 28/09/2012 07:00
CATEGORIA(s): Colunistas, Outros destaques

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Descrição: Márcia Denser

Pela primeira vez nesta coluna, vou atender ao pedido de um dos meus leitores mais assíduos, Nelson Gomes, que, coluna passada, solicitou que eu editasse, neste espaço, a famosa entrevista de Samir Amin, um dos maiores articulistas e filósofos da atualidade, dada recentemente à jornalista equatoriana Irene León (leia a entrevista na íntegra aqui), avisando desde já que o texto não é literal, mas uma versão compactada & comentada por esta colunista, ok?

A matéria tem como tema o capitalismo monopólico generalizado visto da perspectiva dos países semiemergentes, China, Rússia e outros. Samir Amin abre a questão sugerindo três características importantes e decisivas do capitalismo contemporâneo. Não do capitalismo em geral, mas do que caracteriza o capitalismo contemporâneo: só tendo compreendido isso, será possível dimensionar o desafio que os povos do sul enfrentam. Segundo Amin, sua tese sobre a natureza do sistema capitalista contemporâneo é que entramos numa nova fase do capitalismo monopólico, uma etapa qualitativamente nova, pautada pelo grau de centralização do capital, cuja condensação chega a tal ponto que, hoje, o capital monopólico controla tudo.

Claro que o conceito de ‘capital monopólico’ não é novo. Foi cunhado no final do século 19 e desenvolveu-se como tal em três fases sucessivas durante todo o século 20. Mas é a partir dos anos 1970-1980 que se inicia essa etapa qualitativamente nova, porque, antes, o capital monopólico existia, mas não controlava tudo. Atualmente, já não há qualquer atividade econômica capitalista que seja autônoma ou independente do capitalismo monopólico, que controla todas as atividades econômicas capitalistas, inclusive as que ainda conservam alguma aparência de autonomia. Exemplo, dentre vários que há, é a agricultura nos países capitalistas desenvolvidos, que é completamente controlada pelos monopólios que fornecem insumos, sementes selecionadas, pesticidas, crédito e cadeias de comercialização. Essa é a característica decisiva, a mudança qualitativa, que cria o “monopólio generalizado”, extensivo a todos os campos e esferas.

Esta característica provoca consequências fundamentais.

Em primeiro lugar, a democracia burguesa foi completamente desvirtuada. Se, antes, ela se fundamentava numa oposição esquerda-direita, correspondendo a alianças sociais mais ou menos populares ou burguesas, mas diferenciadas pelas diferentes concepções de política econômica, hoje, nos EUA, por exemplo, republicanos e democratas, ou na França, os socialistas de François Hollande e a direita de Sarkozy, são todos iguais. Estão todos alinhados num consenso que é o consenso ordenado pelo capital monopólico.

Essa primeira consequência constitui uma grande transformação na vida política. A democracia assim desvirtuada converteu-se em farsa – o que se vê claramente nas eleições primárias nos EUA. O capital monopolista generalizado provocou consequências seríssimas: converteu os EUA numa nação de idiotas (vide coluna anterior “Povo descartável e idiota” ). Algo muito grave, porque a democracia já não tem como se expressar.

A segunda consequência é que o “capitalismo generalizado” é a base objetiva da emergência do que chamamos de “imperialismo coletivo” da trinca Estados Unidos-Europa-Japão. Já não há grandes contradições entre EUA-Europa-Japão; existe alguma concorrência no plano comercial, mas, no plano político, o alinhamento com as políticas definidas pelos EUA como “a política mundial”, é imediato e completo.

Quem invoca “a comunidade internacional”, copia o discurso dos EUA e, três minutos depois, lá estão os embaixadores europeus com alguns comparsas e notórios democratas, como o Emir do Catar ou o rei da Arábia Saudita. A ONU não existe. Como representação dos Estados-Nação, é uma caricatura (uma piada de mau gosto,uma palhaçada, uma ópera-bufa,o que significa que já não existe cidadania mundial, mas consumo global, o que absolutamente não é a mesma coisa, comentários meus.). Essa transformação fundamental – a transição do capitalismo monopólico para capitalismo monopólico generalizado – explica a financeirização, porque esses monopólios generalizados conseguem, dado o controle que têm sobre todas as atividades econômicas, bombear uma parte cada vez maior da mais-valia em todo o mundo e convertê-la na rampa monopolista, a rampa imperialista, que é a base da desigualdade e do estancamento do crescimento dos países do norte e da trinca Estados Unidos-Europa-Japão.

Chega-se assim ao segundo ponto: esse é o sistema que está em crise e, ainda mais, não é simplesmente uma crise, é uma implosão, no sentido de que esse sistema não é capaz de se reproduzir a partir das próprias bases. Isto é: ele é a primeira vítima de suas próprias contradições internas. Esse sistema implode, não porque seja atacado pelo povo, mas por causa de seu êxito. O sucesso que teve no processo de impor-se no povo leva-o a provocar o crescimento vertiginoso das desigualdades, que não só é socialmente escandaloso, mas, também, inaceitável. Mas acaba por ser aceito, e aceito sem objeções. Essa, claro, não é a causa da implosão. O sistema implode porque não consegue reproduzir-se a partir das próprias bases.

E há à terceira dimensão, que tem a ver com a estratégia das forças reacionárias dominantes. Quando falamos das forças reacionárias dominantes, referimo-nos ao capital monopólico generalizado da trinca imperialista histórica Estados Unidos-Europa-Japão, à qual se somam todas as forças reacionárias em todo o mundo, que se agrupam, de um modo ou de outro, em blocos dominantes locais e mantêm essa dominação mundial reacionária. Essas forças reacionárias locais são extremamente numerosas e diferem enormemente de um país para outro.

A estratégia política das forças dominantes, isso é, do capital monopólico generalizado, financeirizado, da trinca imperialista coletiva histórica tradicional: Estados Unidos-Europa-Japão, está definida por sua identificação do inimigo. Para eles, o inimigo são os países emergentes, quer dizer, a China; os demais – Índia, Brasil e outros são países semi-emergentes. Ou seja, apenas “semi-inimigos”(comentário meu).

Por que a China? Porque a classe dirigente chinesa tem um projeto. Não vamos entrar em detalhes sobre a natureza socialista ou capitalista deste projeto. O importante é que tem um projeto, que consiste em não aceitar o que ordena o capital monopolista generalizado financeirizado da trinca; que se impõe mediante suas vantagens: controle da tecnologia, controle do acesso aos recursos naturais do planeta, dos meios de comunicação, propaganda, etc., controle do sistema monetário e financeiro mundial integrado e das armas de destruição em massa.

Sem alarido, a China questiona essa ordem estabelecida. A China não é totalmente subcontratista, apenas em alguns setores como fabricantes e vendedores de brinquedos baratos de má qualidade, unicamente para a obtenção de divisas. Mas não é isso que caracteriza a China. O que predomina na China é seu desenvolvimento e a rápida absorção de tecnologia de ponta, sua reprodução e desenvolvimento próprio. A China não é a fábrica do mundo, como dizem alguns. Não se trata de “made in China” [feito na China], mas de “made by China” [feito pela China]. E isso é possível, porque fizeram uma revolução: o socialismo chinês construiu, paradoxalmente, a via que tornou possível entrar na disputa num certo campo do capitalismo.

Diz Samir: “Eu diria que, exceto a China, os demais países emergentes são secundários. Se tivesse de classificá-los, classificaria a China como 100% emergente; o Brasil, como 30% emergente; e os demais países como 20% emergentes. O resto, comparados à China, são subcontratistas, porque têm negócios importantes de subcontratação, porque têm uma margem de negociação, um compromisso entre o capital monopolista generalizado financeirizado da trinca e os países emergentes como Índia, Brasil e outros. No caso da China é diferente. Por isso, a guerra contra a China é parte da estratégia da trinca. Há 20 anos, já havia norte-americanos doidos que defendiam a ideia de declarar guerra à China imediatamente, porque, depois, seria tarde demais.”

Observa Amin: “Os chineses tiveram êxito. Por isso, sua política exterior é tão pacífica. E, agora, a Rússia também já integra, com os chineses, a categoria dos verdadeiros países emergentes. Lá está Putin, modernizando o exército russo, tentando refazer o que foi a armada russa, que, noutros tempos, constituiu efetivo contrapeso à potência militar dos EUA. Isso é importante. Não discuto aqui se Putin é ou não é democrata, ou se sua perspectiva é ou não é socialista; não se trata disso; hoje se trata da possibilidade de fazer frente ao poder da trinca.”

“O resto do mundo, o resto do Sul Global, ninguém de nós conta ou faz qualquer diferença. Ao capitalismo monopólico coletivo, nossos países só interessam por uma única razão: como fonte de recursos naturais aos quais o capitalismo monopólico coletivo tem de ter acesso, porque esse capital monopólico não consegue reproduzir-se sem controlar, sem consumir, sem detonar os recursos naturais de todo o planeta.”

Para garantir unicamente para si o acesso aos recursos naturais, os imperialistas necessitam que nossos países não se desenvolvam. O ‘lumpen-desenvolvimento’, como Andre Gunder Frank bem definiu, aconteceu, mas em circunstâncias muito diferentes. Aliás, o único projeto do imperialismo para nós é o ‘não desenvolvimento’.

Desenvolvimento, só do anômalo: pauperização mais petróleo, falso crescimento, ou gás ou madeira, o que for, desde que signifique acesso a recursos naturais. E isso é que está a um passo de implodir, porque tornou-se moralmente intolerável.O povo já não aceita. E aqui se geram as implosões.

Samir observa pontualmente: “As primeiras ondas de implosões aconteceram na América Latina. Não por acaso, aconteceram em países marginais – Bolívia, Equador, Venezuela. Não é acaso. Depois, a Primavera Árabe. E já há outras ondas, no Nepal e em outros países. Porque esse não é movimento de uma região específica. Para o povo, protagonista disso tudo, o desafio é enorme. Quero dizer: o desafio não se dá sob o marco desse sistema, tentando transcender o neoliberalismo rumo a um capitalismo ‘com cara humana’, entrar na lógica da ‘boa governança’, da redução da miséria, da democratização da vida política, etc., nada disso. Esses todos são modos de administrar, de gerir a pauperização – único produto dessa lógica.”

E ele conclui: “Não estamos passando por alguma simples conjuntura: estamos passando por um momento histórico, que se mostra formidável para o povo. Falo de revolução, mas não quero abusar desse termo. Digamos que estão postas as condições objetivas para construir grandes blocos sociais alternativos, anticapitalistas. Há contexto para a audácia. Para pensar uma mudança radical.”

Essa entrevista explosiva – e implosiva – de Samir Amin, continua na próxima coluna.

Me aguardem.

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