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A ESSÊNCIA DO IMAGINÁRIO – de NILZA AMARAL – SÃO PAULO – BRASIL

A ESSÊNCIA DO IMAGINÁRIO / Das flores às nuvens

Gabriel, o construtor da casa surrealista do nordeste, na certa “foi tomado de assalto” e procurou através desse corpo físico exterior realizar a sua utopia interior.

Exatamente como a casa dos contos de fadas – a casa da imaginação de Gabriel dá rédeas ao imaginário. O construtor da Casa da Flor construiu a “sua casa espiritual” como o recinto apropriado para abrigar as suas fantasias – “o lugar que não existe”.

O homem procura diferentes meios como catarse. Quer livrar-se da opressão do mundo real e transportar-se à condição ideal. Então constrói um mundo à parte, onde recriará seu admirável mundo novo, como Huxley. O ser utópico, devemos frisar, não é um ser desagregado da sociedade, um sonhador ou um ingênuo, mas sim um indivíduo insatisfeito, como podemos conferir com os exemplos dos grandes utopistas: Platão, Thomas More, o criador do termo Utopia, que construiu a abstração de como seria “uma

sociedade sem a propriedade privada”; Francis Bacon (lorde chanceler do rei Jaime I da Inglaterra) que idealizou “uma sociedade inteiramente regulada por meios científicos”. Por serem as sociedades utópicas fundamentadas nos meios científicos, por vezes levam a incabível denominação de sociedades de ficção científica.

Tivéssemos a liberdade de construir refúgios independentes em todos os sentidos, quer dos padrões vigentes da arquitetura, quer dos padrões estabelecidos pela sociedade, teríamos a utopia concretizada, pois há esse sonho implícito na própria palavra: o sonho da liberdade. Certamente Gabriel, o construtor da Casa da Flor, inconscientemente tentasse realizar esse sonho construindo o seu abrigo espiritual com os objetos do mar – o grande provedor, e da natureza.

Com o advento do capitalismo selvagem, a liberdade vital em grande parte da população integrada nesse processo mudou de conceito – surgiram novas necessidades vitais. Quando o sonho é realizável deixa de ser sonho. E se existem condições para a obtenção da liberdade cabe ao indivíduo conquistá-la, proeza não muito fácil, responsável pela ruptura de teses como: querer é poder.

Exatamente como Gabriel o construtor da Casa da Flor, o escritor, prosador ou poeta, constrói seus universos utópicos, suas obras repletas de personagens ideais. O ingresso nesse mundo fantástico é a vontade de nele existir enquanto durar o tempo de leitura, seja do romance, da novela ou do poema. Os seres irreais que criam vida dentro daquele universo são construídos a partir da essência do imaginário. A escritura é a casa que abriga o criador. As pedras que a constroem, como as conchas de Gabriel, são as palavras que vão dando a forma aspirada por esse arquiteto do imaginário, e cuja arquitetura pode fugir muito do conceituado provocando críticas e exigindo explicações. Proust fala de palavras que formam uma crosta e bloqueiam os canais de nossa vida íntima, ao passo que outras leves fluidas e respiráveis circulam livremente em nosso sistema. Rimbaud em “Alchimie du Verb” nos disse: “antes de escrever uma palavra saboreio-a como um cozinheiro saboreia um produto que vai deitar no molho; examino-a à luz como um decorador examina um jarro chinês que quer realçar (…) e não emprego senão palavras que conheço o sabor íntimo e o poder de evocação e ressonância”. Shelley compara as palavras a uma nuvem de serpentes aladas. Milton as considera como ágeis e aéreos servidores, voando à nossa volta e a nós subordinados.

Remeto-me às flores parecidas com flores de glacê com que Gabriel enfeitou a sua casa. Se a criação naïve de Gabriel nos leva ao devaneio e, como Fernando Freitas Fuão relata, ao espiritual, a estrutura de sua casa coteja perfeitamente com a estrutura de uma obra de criação literária: a argamassa, a forma, os elementos – as palavras. Os bancos colocados ao longo dos muros, a varanda com o jardim de flores, representam os equilíbrios e os desequilíbrios existentes no universo de palavras: o repouso e o sobressalto, a respiração, a inspiração, a preparação para a leitura. Na saída, na varanda de flores, o espaço à reflexão do visto, no caso da casa construída caco a caco, e do lido no caso da obra, construída palavra por palavra. O fantástico e o maravilhoso estão dentro de nós pedindo passagem, e o homem faz de sua realidade um conjunto de mitos em que acredita, e se assim não fosse, o espírito criativo se apagaria. Os surrealistas contribuem com grande parte do nosso imaginário, quando revestem qualquer fato banal do quotidiano, de outro valor repensado em delírio. O comum torna-se fantástico ou maravilhoso porque sugere uma outra faceta de sua proposta anterior. Essa passagem se dá pelos sentidos sem que sejam necessárias explicações do mundo “normal”. A casa de Gabriel é fantástica porque foge dos padrões e nos faz delirar.

Se fiquei impressionada com a matéria do Fernando Freitas Fuão é porque construí um mundo cheio de flores e perfumes dentro do meu romance O Florista. Cada pétala de cada flor tinha um significado. Cada espécie remetia a uma lenda de paixão referente à sua origem. Como diz o autor: ” Enquanto o fogo florescia a flor se iluminava”. Essa catação de conchas de Gabriel, esse cuidado descuidado em montar cada flor nas paredes, tocou-me profundamente como criadora.

Se tudo é efêmero, não podemos deixar a imaginação fenecer. Temos que teimar em desenvolver o nosso projeto criativo que será infinito se alimentado. Ou então perderemos até a luz que ilumina o nosso espírito como o garoto que não se lembrava com que freqüência o sol alumiava aquelas paragens porque só tinha treze anos.

Nilza Amaral

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