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A IMPORTÂNCIA DE MACHADO DE ASSIS UM SÉCULO DEPOIS DE SUA MORTE-da ESCRITORA – SUZANA GUIMARÃES FARIAS-RECIFE-BRASIL

A importância de Machado de Assis um século depois de sua morte

( Suzana Guimarães Farias )

O céu é para o olho uma taça invertida, o interior de uma bacia de safira, a perfeita beleza da forma e da cor. Diante do céu, o olho não experimenta exatamente a sensação dada pelos objetos sólidos e limitados: sente que está em seu poder, diante do ilimitado, transcender aquilo que vê.

COLERIDGE

A transcendência de barreiras espaços-temporais é uma característica da obra do gênio Machado de Assis. Estudiosos como Roberto Schwarz, José Guilherme Merquior, John Gledson, Paul Dixon, Alfredo Bosi, Daniel Piza e tantos outros têm analisado a obra desse nosso Grande Escritor, porém o universo machadiano parece recriar-se incansavelmente a partir das interrogações da natureza humana, alimentando-se daquilo que se esquiva e se esconde detrás das palavras emudecidas, tornando-se inesgotável e sempre atual.

O professor e crítico literário Harold Bloom escreveu um ensaio intitulado Shakespeare – A invenção do humano. Atribuo ao Bruxo do Cosme Velho a exteriorização dessa humanidade; a ação de despir a alma humana, essa alma que se mostra na medida em que se lhe retira as suas vestes sociais.

A importância de Machado de Assis um século depois de sua morte consiste, dentre outras razões, naquilo que permeia a fascinante obra do mestre que é a dubiedade do agir e do sentir das personagens; o desapego às formas deterministas de ser, de pensar; a ruptura da psique pré-definida estabelecida pelos textos de então; a imersão na percuciente diversidade da alma humana; a exposição do existencialismo dialético que, em um momento, é, e, noutro instante, pode não ser.

Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena, Iaiá Garcia, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó são algumas criações desse gênio cuja obra literária é vasta. Escreveu, também, contos, crônicas, poesias, peça teatral. Apesar de não ser tão divulgado como poeta, publicou duzentos e setenta e oito poemas. Crisálidas, Falenas, Americanas fazem parte do universo poético machadiano. Em A Mosca Azul (poesia), temos, além de um vocabulário exótico, o mistério do belo e do efêmero que não se permite desvendar, antes se desvanece. O poema À Carolina é sublime, uma obra-prima onde o autor revela, de modo perfeito, o seu grande amor na excelência dos versos que constrói.

Plenamente identificado com os problemas de seu tempo, observando com acuidade aquilo que foge ao olhar comum, usando uma linguagem escorreita e singular, o mestre elabora as suas personagens e histórias tecendo o estilema narrativo dos seus romances num tempo que deixa de ser tripartite, na medida em que se comunica com outras épocas, para ser uno.

Por tudo isso, o conjunto da obra do Bruxo do Cosme Velho continua atualíssima, instigante, multifacetada, mesmo depois de um século da sua morte.

Assim como Mozart confunde-se com a música, Machado mescla-se à palavra. E expressar a dulcíssima ou amaríssima palavra que permeia as mentes humanas – e que se modela da mesma substância atemporal do sentimento na alma que transborda – é tê-la irredimível como Cronos nos versos de T. S. Eliot, incrustada na essência de um outro tempo secreto, imenso, incognoscível…

 

 

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