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AVÓMÃE: O PODER DO ALFA MATRILINEAR- de ROSELI FERRAZ DE ARRUDA – S. JOSÉ DO RIO PRETO-SP-BRASIL

Avómãe: O poder do alfa matrilinear

Algumas passagens da nossa vida ficam arquivadas para sempre num lugar muito secreto do nosso cérebro e de vez em quando voltam à tona com a mesma significação do passado. Caminhamos para o futuro, mas o passado vem junto, vinculado a tudo ao nosso redor.

Mesmo depois de tantos anos da sua morte, lembro com saudade da minha avó Geny, uma avozinha linda, delicada e ao mesmo tempo uma verdadeira fortaleza que concentrava em si todo o poder na terra de coesão da minha família. Ela era o nosso ponto de convergência emocional, ao redor dela gravitávamos.

Vovó Geny, árvore de raiz forte, dona da sabedoria intrapsíquica herdada da primeira mulher, conhecia chás e remédios para todos os males e mesmo franzina era capaz de jogar o diabo do outro lado da rua para defender um filho ou a sua casa. Figura carregada de histórias e sonhos, signos e símbolos que constituíam a base concreta da nossa estrutura familiar, vivia com a leveza de uma borboleta entre a horta, árvores frutíferas, as primaveras coloridas, os santos de sua devoção e por outro lado, como uma loba feroz, pressentindo e evitando os perigos do cotidiano. Registrei na memória um dos seus hábitos – gostava de coar café num coador de pano e dizia que não era um coador qualquer e sim “o coador” feito com as próprias mãos com o capricho de um artesão e uma vida confeccionada à mão é abençoada e muito mais saudável. Como morávamos em uma cidade do interior e tudo era perto, todas as tardes, minha mãe, tias e primas marcavam presença na cozinha encantada da casa da vovó, uma verdadeira procissão, um ato religioso, quase sagrado. Em volta da mesa posta com toalhas bordadas com maravilhosos bicos de crochê, pão quentinho assado no forno a lenha e leite com café, os problemas da família eram debulhados. Naturalmente uma encontrava na outra a força vital necessária para superar crises caseiras, conjugais e até mesmo existenciais. Minha avómãe (tudo junto) como as fêmeas do reino animal, ensinava suas descendentes a se precaver disso ou daquilo, a prestar atenção às coisas, a aguçar os instintos. Ela era suporte emocional para as jovens mulheres da família e auxiliava a todas a celebrar e entender as estações cíclicas da vida. Apenas sua presença bastava para fortificar aquela que estava passando pela primeira menstruação ou primeira amamentação. Meus olhos infantis rastreavam tudo e a sensação que me invadia era que o universo caseiro amava a mim sem resistências e eu não estava desamparada.

Do lado de fora da cozinha da vovó generais assinavam decretos, exilavam artistas e intelectuais, a ditadura proibia e torturava, mas nada disso conseguia embatumar nosso bolo de fubá. Nada me faltava, as tardes ensolaradas da minha infância possuíam a invisibilidade da satisfação, porque era a vida na sua melhor forma. Dentro dos meandros dos hábitos simples da minha família, tudo parecia ter uma saúde sem fim, a tradição do nosso nome e da nossa história estava ali, lama boa, terra fértil, estrumada, sem contaminações.

Meu Deus que distância! Inevitavelmente tudo se transforma, a luta da mulher pela igualdade não mudou apenas a mulher, mudaram também as instituições humanas e a interpretação do mundo. Hoje, diante das imposições do ponteiro do relógio, é quase impossível encontrar uma brecha em nossas tumultuadas agendas para ir tomar café na cozinha de nossas avós. O problema é que mesmo inseridos em tempos pós modernos ou na modernidade tardia, intimamente sabemos que não podemos viver privados dos nossos mitos genealógicos. Na calada da noite nossa alma chora e reclama por coerência e por mais expandida que seja a realidade, sempre procuraremos refúgio no ventre etéreo dos nossos laços ancestrais, porque essa força fertilizadora é o amor na sua mais profunda e incontestável manifestação. A nossa verdade mais íntima é que conseguimos nos manter completos não por amar, mas por ser amados.

O avanço tecnológico não é capaz de nutrir nossos espíritos, é por meio da nossa herança sanguínea que recebemos uma célula divina que contém todos os instintos, conhecimentos e códigos necessários para nossa vitalidade física, mental e espiritual. As placentas que nos fecundam garantem a expansão das nossas almas e somente assim atingem profundidade. E isto não é antigo e nem moderno, é eterno – há valores permanentes sem que os encontremos envelhecidos.

Formamos uma rede de seres livres e conectados, o mundo ficou pequeno, acessível e não há problema no progresso, no avanço da ciência, da economia ou da física quântica, tudo isto faz parte de um processo que não tem mais volta, mas são os vínculos com nossas raízes mais profundas através do tempo e do espaço é que impedirão o declínio da raça humana. Árvore sem raiz apodrece e morre sem atingir a plenitude de florescer.

Vovó Geny, vovó Malvina, mamãe Irene e as tardes mágicas conservadas num lugar muito distante e atemporal dentro de mim, alfas matrilineares, exuberâncias órficas das coisas, anfitriãs do mundo – para vocês, com muito amor e respeito, ofereço esta pequena homenagem.

Roseli F.de Arruda

 

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