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CINCO CONTOS E CRÓNICAS – da CONTISTA, CRONISTA E POETISA CINTHIA KRIEMLER-BRASÍLIA- BRASIL

CINTHIA KRIEMLER

e os seus cinco belos textos

1

VEZ EM QUANDO

2

A CONSTITUÍÇÂO DE TAL

PINCÉIS, TELAS E POSSIBILIDADES

O TRANSPORTADOR

5

ESTRANHO MEU

1 – VEZ EM QUANDO

Um cheiro de saudade cruza por mim. Um perfume, talvez um aroma de pele. Não dá mais tempo de impedir a memória, nem de punir a sentinela da razão que se atrasou por uns segundos. Já estou impregnada desse vento de passado que me força companhia.

O cheiro de café torrado insiste em fazer cócegas no meu cérebro, me dizendo que não vai ser fácil me livrar da sua lembrança. Pois que seja. Não sou mais alguém em agonia. Depois de você, tornei-me matéria sólida, como as lajes e os granitos. Sem os rompantes, sem a histeria da partida. Nenhum sofrimento à superfície, nenhuma tristeza deslocada. Apenas o suficiente para prosseguir humana.

Não consigo fixar seu rosto nos meus pensamentos. Foi assim também na primeira vez em que nos encontramos. As pessoas eram sempre pontos distorcidos em minhas fugas de álcool fácil e carnes esquecíveis. E você estava lá, numa daquelas noites que terminavam só depois da madrugada.

Além do prazer, dois hábitos me acompanhavam fielmente: eu nunca dormia fora da minha própria cama, nem chegava em casa sem uma boa xícara de café forte. Na verdade, eu sempre tive medo de acordar em camas estranhas. Como se olhar em volta e não reconhecer os objetos me impedisse de saber para onde ir embora. Eu pertencia a todas as camas, mas deitava meu sono em meu próprio colchão, repleto de mim. O café forte era um ritual de purificação. Nada que cortasse o efeito da bebida ou o sono, somente um amuleto de dignidade que me deixava voltar para casa sem contaminar de embriaguez o ar.

Quando nos encontramos pela primeira vez, sua boca exalava café torrado. Por trás do balcão, uma mistura de amargos e doces flutuava abaixo de uma placa esnobe, onde se lia: Chez Fernand.

— Um café?

— Forte, por favor.

— Alguma coisa para comer?

— Não.

— Um croissant fresquinho? É a especialidade da família.

Fiz que não com a cabeça, enquanto afastava a sensação de náusea que me vinha só de pensar em comida. Mas achei gentil a insistência. E tive certeza de que voltaria ali quando estivesse sóbria.

Voltei, duas semanas depois, numa madrugada de chuva. Nenhum álcool naquela noite, nenhuma cama de onde tivesse saltado. Fui para enxergar o rosto ao qual pertencia aquela boca de café torrado. Atrás do balcão, dois rapazes se ocupavam dos expressos e dos chocolates. Ninguém que eu pudesse associar à voz modulada e cheirosa que tinha agradado aos meus instintos. Eu já me preparava para me levantar sem pedir nada, quando o mais alto dos dois se aproximou de mim:

— Como vai? Que bom que você voltou! Um café?

Era ele! A boca de café torrado, os dentes claros, benfeitos. Um menino! Quantos anos? Uns 24, no máximo 25.

— Um chocolate com creme, por favor — respondi depressa, subitamente sem jeito para incluir um licor no pedido.

— Chuva forte, hein? — perguntou com delicadeza, enquanto colocava a bebida.

Não respondi. Homens mais jovens não faziam parte dos meus vícios. Minha ânsia de afeto era aplacada por gente como eu, descartável, invisível, desraizada. E por álcool, para permitir que tudo fosse permitido. E por sexo, que me fazia atravessar a madrugada insone. Nada de amor, essa coisa estranha que se oferece em desencontro. Não, nada de homens jovens! Eles têm o péssimo vício de amar!

— Eu sou Fernand. O da placa — revelou, vaidoso. — Como é o seu nome?

— Aimée.

— Aimée! Amada… Significa amada, em francês, você sabia? Minha família é de origem francesa. Que coincidência! É um nome lindo.

Pedi a Deus que me tirasse de lá, porque meus pés não ofereciam essa opção! O rapaz estava flertando comigo, se exibindo para mim! E, mesmo assim, o que ele dizia entrava em meus ouvidos como uma escala afinada. Esperei realmente por um pequeno empurrão, uma lucidez acanhada. Mas tudo falhou. A divindade, os pés, a vontade.

Eu mesma derrubei as cercas, deslembrada de que as cercas existem para guardar ou impedir. Fiz como o predador que fareja carne tenra: desprezei as armadilhas, até ser colhida pela dor das estacas.

Fernand e eu fomos felizes por duas chuvas. Ele se fez caber por inteiro em meus espaços vazios. Afastou minhas urgências, ofereceu-me outras, me emprestou o riso, o colo, os olhos brilhantes. E eu me completei dele. Ganhei abraços de tirar o fôlego, brinquei sem pressa sobre a cama desfeita, escrevi palavras bobas, sem sentido, em bilhetes e vidros embaçados de chuveiro. Fiz passeios de mãos dadas, desconcertei olhares. Dei gargalhadas no cinema, fiz sexo na escada e me senti bonita de cara lavada.

Então, numa data sem aviso, antes que a terceira chuva pudesse me trazer mais um ano, tomou conta de mim uma antiga sensação de ausências. Não sei se foi um gesto diferente, um jeito de respirar acelerado, uma desatenção proposital. Sei que os fogos de artifício se tornaram, de repente, fósforos usados.

Talvez, se Fernand tivesse morrido, talvez se ele tivesse amado alguém mais jovem que eu, com menos caminhadas, eu teria podido me agarrar ao consolo do plausível. Mas não foi assim. Fernand só queria mesmo ir embora.

Eu ainda não estava pronta para me encontrar com a mulher vazia que morava dentro de mim, mas a solidão me alcançou inflexível numa noite sem forças. E eu me cedi a ela.

Com o tempo, acertamos uma trégua. Vez em quando, colho nas ruas um cheiro de saudade. Apenas o suficiente para prosseguir humana.

2-PINCÉIS, TELAS E POSSIBILIDADES

Existe uma tendência ao fanatismo em cada indivíduo que professa ou segue uma única doutrina. É assim com os fiéis religiosos, com os torcedores nos estádios, com os adeptos da moda e com os economistas. Cada qual enxergando o mundo em preto, em branco ou até mesmo em vermelho. Mas, todos eles, monocromáticos.

As doutrinas econômicas que vigem no Séc. XXI possuem, todas elas, méritos incontestes. Mas não se trata mais do que é ou não de merecimento. O mundo, antes dividido em socialismo e capitalismo, deu-se ao direito de expandir o pensamento clássico a respeito desses dois sistemas, reconstruindo teorias ao sabor das novas relações homem-governo, homem-mercado, governo-mercado, mercado-mercado. Até aqui, funcionou para a maioria. Por convencimento ou coesão. Cada qual defendendo as suas ideologias, os seus filósofos, as suas crenças. Porém, mais do que tudo, defendendo a sua fonte de poder. A visão unicista — um remédio só para várias doenças — passou a ser considerada comum. E passou a ser aceita. Por socialistas e capitalistas.

Para se entender melhor esse milagre de aparente incoerência, é preciso ter em mente que as doutrinas se implantam e fortalecem pelo convencimento do indivíduo de que tudo é feito por ele, para ele e para as gerações que virão. Pronto. Persuadido de que o governo é pai e mestre, entrega-se o homem aos ofícios de produzir e produzir, incessantemente, para a grandeza do Estado, do coletivo, ou do seu próprio bolso. Resta-lhe, como cidadão, deixar-se acolher pelas grandes asas dessa ave gigante; asas que o abrigam das desditas.

Desse contexto de filiação duvidosa brotou o welfare state, o Estado de bem-estar social que prega e aplica o respeito aos direitos básicos do indivíduo, desde o seu nascimento até o dia em que seu corpo descansa desta vida, protegendo-o dos reveses sociais por acreditar que seja papel do Estado prover. Prover e proteger. E regular. Como se espera que o façam os bons pais, garantindo saúde, educação, moradia e um certo montante em dinheiro. Só que para os desempregados, filhos do Estado. Entende-se, com isso, que está preservada a dignidade do homem. Subentende-se, nos bastidores da doutrina, que estão também preservadas, nas mãos de quem presta a assistência, as rédeas do controle.

Então, por que o welfare state tem sido posto à prova pela contemporaneidade do Séc. XXI? Não é preciso entender de doutrinas para seguir a trilha dos fracassos. No século precedente, o socialismo do leste europeu abortou a si mesmo em face de seus próprios excessos. Descontrolou-se no cerceamento e na violação das liberdades individuais, na violência, na arrogância, no controle da economia e na visão unicista de que ao Estado cabia decidir e opinar, rigidamente, pelos cidadãos. Já agora, nos anos 2000, excede-se o Estado-providência ao não gerar as fontes para que o indivíduo supra, ele mesmo, as necessidades que o acompanham enquanto homem e cidadão. É o Estado-pai, o Estado-provedor, o Estado-controlador. E que se danem os que estiverem de fora — mesmo que esse “fora” esteja dentro. Mesmo que em nome e consistência se fale aqui de sistemas políticos e econômicos inversos, é preciso questionar se inverso é o mesmo que antagônico.

O mundo padece de carestia. Socialista, capitalista, provedor ou neoliberal. Escassez de recursos, escassez de víveres, escassez de água, de empregos, de renda. Riqueza acumulada, pobreza devastadora, bolsões de discrepâncias. Muitos deles, em casa, na porta ao lado, um pouco mais adiante. O modelo socialista que devastou economias por trás da Cortina de Ferro isolacionista não perde em monta para o faz de conta protecionista do Tio Sam. Empenhados em cuidar do seu próprio quintal para garantir o controle da casa, os Estados Unidos estão pagando a conta com a moeda da ingovernabilidade — que lentamente mostra a sua cara —, e por meio de uma miséria mal escondida, causada pelo separatismo racial e de classes econômicas, exposta a quantos tiverem tempo para observar e apreender.

O mundo está aos berros. E vem gritando tão alto que nem mesmo o isolamento estratégico que é imposto aos menores, aos emergentes tem dado conta de jogar para debaixo dos tapetes a sujeira dos dados, das estatísticas e das disparidades. Só no Brasil, aproximadamente 60 milhões de cidadãos (sobre) vivem na e da economia dita invisível, ou subterrânea. Uma economia que é negada porque desonra, porque desconcerta, porque assusta. E porque não interessa aos donos da riqueza.

Encontram-se nesse calabouço os que vendem em sacolas de porta em porta, os que lavam ou tomam conta de carros nos estacionamentos públicos, os que engolem fogo no sinal como prática diária, os que vendem flores, balas, picolés. Mas esses são os casos primários da invisibilidade. Encontram-se também nessa mesma economia informal os camelôs que vendem os produtos ilegais nas ruas das grandes cidades; os aviões que vendem as drogas que consumimos todos — os que fumamos, os que cheiramos e os que deixamos pra lá —; e os “profissionais” que vendem o corpo, um corpo muitas vezes tão frágil e invisível quanto a economia que ninguém sabe, ninguém quer ver. Esses são os casos mais sérios da economia subterrânea.

3 –  A CONSTITUÍÇÂO DE TAL

Domingo, oito da noite. Rua pequena, cidade grande. O tropel de cinco ou seis pares de botas não tem testemunhas senão a própria vítima. Socos, pontapés, massacre. Um grito de medo, muitos de impotência. Mais tarde, no leito de um hospital público, não é a dor que enlouquece o paciente, mas as palavras que estacionaram em seus ouvidos, como mantras do mal: “Viado! Viado aidético!”. João, José, Manuel, Raimundo de Tal tem a cabeça rachada em três lugares, ou para falar no jargão médico, sofreu traumatismo craniano. Sofre, ainda, da incredulidade de que tudo tenha mesmo acontecido.

Esse cenário de violência homofóbica repete-se dia sim, outro também, nas cidades, nos jornais e na história dos que apanham por terem opção. A opção de serem o que são. Como a bailarina cujos dedos do pé são feios e tortos. Como o mecânico cujas unhas estão sempre negras de graxa. Como a freira cuja fé repele os homens da Terra para entregar-se à Trindade dos céus. Opções. Vontades libertadas por prazer, hábito ou fé. Escolhas.

Enquanto isso, no hospital público, João, José, Manuel, Raimundo de Tal, cidadão, trabalhador, filho de alguém, irmão de alguém apalpa a cicatriz que desce pela face. Vidro cortado; enterrado como sadismo em sua bochecha. Quer entender também a cusparada que levou antes do corte. Porque cuspe é mais que dor, é humilhação. E compreender a dor de desespero que arde e coça dentro do peito; mais que a cicatriz.

O policial de plantão cumpre o seu papel. Anota nome, endereço, detalhes e dá a queixa como prestada. Segue para o próximo caso. Um travesti de programa. Estupro seguido de esfaqueamento. Ninguém responde por ele. Está morto e o policial com a prancheta se aborrece porque preencher sozinho a papelada é tarefa menor. Ele pega bandido. Papel é coisa de babaca. Mas tem muito crime e poucos homens para cobrir a metrópole, cada vez maior.

João, José, Manuel, Raimundo de Tal consegue um advogado. Um doutor que lhe conta a que leis vai recorrer para colocar atrás das grades os agressores, capturados em razão de novos ataques a homossexuais. Ele presta a atenção às palavras bonitas da Constituição brasileira. E acredita que, perante a lei, é igual a qualquer outro homem, protegido do preconceito, da surra, do cuspe na cara. Não sabe ainda que, no Brasil, a incoerência e o deboche não acontecem pelo texto ilibado da lei, mas pela prática diária da impunidade, pelo abrandamento das penas, pela vilania disfarçada em bons modos.

No tribunal, os skinheads são julgados e condenados. Seis meses depois. Mas João, José, Manuel, Raimundo de Tal não se impressiona com a morosidade da Justiça, nem com o número de crimes similares de que são acusados os nazistas de cabeças raspadas. O que mais lhe chama a atenção é o juiz que profere a sentença sem ter olhado em sua direção sequer uma vez, durante o julgamento. Ele sente vergonha da homossexualidade de João, José, Manuel, Raimundo de Tal. Mas é um homem de leis. Cumpre o que precisa.

A dor da cicatriz de dentro continua. Sem previsão de passar. É dor de preconceito.

4 –  O TRANSPORTADOR

Por profissão me foi dada a travessia. Quando pirralho, fazia o transporte de pequenas coisas. Levava os ovos para a vó preparar seus quitutes, depois equilibrava doces e salgados num carrinho de mão e saía para entregar as guloseimas fresquinhas no armazém da cidade. Ia num pé, voltava noutro, trazendo farinha, arroz, feijão e batata, aconchegados no mesmo carrinho rangedor.

Nessa época, também ajudava o pai a entregar latões de leite na feirinha, encarregava-me de fazer chegar a merenda dos manos no pastinho, levava o milho das galinhas antes que elas se unissem num cocoricó histérico, e buscava os remédios da vó toda semana. Quando as suas pernas melhoravam das dores, dava pra aviar a receita só por quinzena, mas eu não me importava com a andança e nem sabia ainda que essa lida constante era ensinamento para as viagens de mais tarde.

Logo que me aprumei um pouco mais, lá pelos 14 anos, passei a entregar bilhetes dos manos e de gente mais velha para as mocinhas das redondezas. Às vezes, transportava as palavras na boca ou na cabeça, jorrando os versos e os recadinhos com a ajuda da voz imberbe e da memória. De vez em quando, se a frase era de fazer corar, ou se era para desmanchar compromisso, a entrega era dentro do ouvido. Nesses casos, ficava por minha conta transportar de volta os tapas, os olhares furiosos e os choramingos.

Assim, atravessei os anos verdes e, adulto, dei ao ir e vir uma serventia de maior monta: firmei-me na profissão de Transportador de Existências.

Um Transportador de Existências não carrega móveis, nem malas, nem quaisquer objetos. Só o vivente e seu quinhão de problemas, alegrias, emoções, vazios… Saúde e doença; sonho e pesadelo; ganho e perda.

Animais são permitidos. A morte, também. No entanto, para que o Transportador não seja enganado sobre carga tão funesta, é imperioso à Ceifadora declarar-se antecipadamente: se de corpos, a conduzir para a morte o vivente; se de almas, a matar em vida, sem levar o corpo. A conversa precisa se dar durante a travessia, para orientar o Transportador.

No começo, eu lotava com famílias inteiras a carroça que o pai me deixou. Mas a confusão tumultuava a viagem. Alhos e bugalhos misturados, sacudindo aqui e acolá? Briga! O sonho da moça que buscava a capital, a tristeza da outra que se fazia acompanhar pela desonra, a imaginação sem freio das crianças, o lamento do velho, o desengano do desempregado, a luxúria do amante. Tudo engalfinhado num chãozinho de carroça!

A coisa ficou mesmo feia quando um moribundo e uma prenha se encontraram. A Ceifadora de Corpos que viajava com ele resolveu disputar importância com a Parição que acompanhava a moça.

— O Transportador vai rumar primeiro para o meu destino! Eu preciso entregar o velho ao seu repouso final! — decidiu a Ceifadora.

— Uma ova que vai! Tem mais pressa o chegar do que o ir-se! — replicou a Parição.

E a baderna só cessou quando a mulher gemeu tão alto que ao meu susto se somaram o júbilo da Parição e a rendição da Ceifadora: a iminência do parto tinha decidido a querela.

Depois desse apuro, passei a transportar uma existência por vez. Apesar de o tempo encurtar com a decisão, não era mais possível permitir que certos destinos se cruzassem. Carregar um a um era mais justo e mais prudente.

Da carroça passei para uma motoneta usada. Desastre! As pilhas de resmungos e de suspiros e de gargalhadas iam penduradas nas laterais do banco do passageiro, batendo no pneu recauchutado e vaticinando um acidente que, felizmente, nunca ocorreu porque a lentidão da maquineta impedia grandes riscos.

Tentei ainda um barco, mas o rio e a travessia pertenciam à Ceifadora de Corpos, e não me apetecia pelejar por território tão sagrado. Ainda mais com quem!

O veículo chegou-me via fatalidade, por meio de um viajante cujas pernas doentes e arroxeadas me lembraram, no instante em que bati os olhos nelas, as pernas da vó. No hospital, quando parei para despejar suas dores, gemidos e febres, pensei que nunca mais o veria. Mas, dias depois, recebi de presente do sujeito nada mais nada menos que uma caminhonete confortável, com o seguinte bilhete:

“Minhas pernas se foram, mas eu sobrevivi. Segundo os médicos, porque o Transportador me conduziu a tempo. Em agradecimento, envio minha caminhonete, a quem chamo de ‘veículo’. É sua, agora, porque para mim não tem mais uso”.

 

Não me fiz de rogado. O veículo era grande, cabia de um tudo. Eu não ia mais precisar carregar só a metade da bagagem dos viventes, nem me aborrecer convencendo-os a deixar para trás um meio fardo. Deitar fora as piores emoções, como medos e angústias, e subir a bordo as sensações mais frugais ou divertidas nem sempre era visto com bons olhos pelo proprietário da existência, por demais acostumado à companhia dos martírios.

Mas mesmo grande, o veículo enfrentou seus percalços. Certa feita, acomodei uma mulher recém-separada que fugia da própria sina. Suas memórias, a dor da separação, a depressão aplacada por pílulas, o coração partido e um cachorrinho irritado — que insistia em ficar aos pés da dona — não eram nada se comparados aos mais de cinco mil relatos de um diário que ela havia escrito durante os 15 anos de casamento. Acomodar lembranças feitas de letras é um deus nos acuda para qualquer Transportador de Existências!

Vez ou outra, era apenas uma carta ou um bilhete que me faziam companhia na estrada. Eu tinha que abrir e ler antes de fazer a entrega. Esse combinado me recordava os dias de menino em que eu levava recados cochichados e trazia de volta os tapas das moças coradas. Apanhei um bocado ao longo dos anos…

O ofício me desgostou de verdade em duas transportações: os viventes eram meu pai e minha mãe, se retirando deste mundo. Nessas duas despedidas, retardei a entrega. Contudo, não me cabia impedir as viagens, somente cumprir, sem burlas, o transporte. Essa lição aprendi cedo, ainda nas primeiras travessias. Com dó de um jovem a quem a Ceifadora de Corpos acompanhava, decidi reconduzi-lo para casa. Subi os olhos até o espelho retrovisor para preparar o retorno. Foi quando, estarrecido, vi que a estrada atrás de mim tinha sumido, dando lugar a um deserto de crateras e troncos retorcidos! E quanto mais eu prosseguia, tendo à frente um pavimento firme e preservado, mais meus olhos encontravam um rastro de destruição em tudo o que ficava para trás. Percebi, depois de poucas vezes, que só acontecia da estrada apodrecer atrás de mim quando a única bagagem do vivente era uma das Ceifadoras, a de corpos ou a de almas.

***

Hoje, não me procurou passageiro. Tenho só uma encomenda, um recado a entregar. A claridade me faz companhia e o caminho está vazio. Enquanto prossigo, abro a folha dobrada sobre o banco ao lado. No papel desmesurado, um imperativo irreplicável sela o meu destino: “Transporta-te!”.

Meus olhos buscam correndo o espelho interno. Não há esperança. No reflexo retrovertido, cumprimentam-me a estrada desolada e a Ceifadora que veio por mim.

Mas qual delas veio…? Qual delas?!

 5 – ESTRANHO MEU

São os estranhos que mais me comovem. Não a família, nem os colegas, nem os filhos. Esses são obrigações que se leva, muitas vezes, como um fardo desajeitado e indesejado.

Meus estranhos são feitos de partilhas mágicas: não precisam de motivo, não agem por interesse. Esbarram em mim na rua, na internet, no banco lotado; e entregam tanto, e se doam tão ilimitadamente que eu me sinto sem graça em não saber ser assim, como eles, tão desarmada.

Meus estranhos são aprendizados do bem. Um que me sorri, um que me presta a atenção, um que me abre uma porta, um que me oferece compreensão calada. E tem os que me admiram do nada, os que me oferecem um lenço invisível ao marejar dos olhos, os que reconhecem no meu rosto, na minha voz, nos meus gestos um momento triste, um dia azedo, uma dor disfarçada. E simplesmente ficam, permanecem alguns minutos, guardiães dos meus temores, das minhas dúvidas, das minhas mortes.

Quero abraçar cada um pela amizade muda que me emprestam, sem intenção ou plano. Fazer com que compreendam as coisas que já evitaram em mim, os sangradouros que estancaram, os furacões que transmutaram em ventos de outono. Dizer-lhes que me comovem, me comovem, me comovem! Por sua gentileza fugidia, por sua luz bem dosada, pela despretensão com que vêm e vão em cenários simples e inesperados. Quero, até, candidatar-me, em retorno, a lhes reconhecer os gestos e as feições, e a ser como eles, solidariamente imprevista.

Mas corro o risco de conhecê-los. E de, os conhecendo, transformá-los em amigos. Aí, deixarão de ser estranhos. E de me comover. E se tornarão como os outros, obrigações que se arrastam em meu espaço, às quais permito o fingimento, mas pouco a emoção. Não! Meus estranhos não podem correr riscos!

 NOTA : Veja a bela biografia desta autora, clicando em FAMÍLIA ARES E MARES no topo da PÁGINA DE ABERTURA deste site.

 

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