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Conto de MARCELO TORRES

“Tá onde?”
                                                                                                                   Marcelo Torres

             No final de semana, quando um amigo liga para meu celular, já não diz mais o tradicional “alô”. Agora, a primeira coisa é a pergunta “tá onde?” Não, não estou reclamando, ao contrário, acho criativo até, pois você sai da mesmice do “alô”.

           Além do mais, quando um amigo vem lhe cercando – “Tudo bem? Como vai a mãe? E o pai? E o cachorro? E o papagaio?” -, pode saber que ele quer lhe pedir alguma coisa, um dinheiro, um favor, um adjutório – mas é sempre um pedido.

       Porém, esse “Tá onde?” é diferente, não é para pedir nada, mas ir onde você está, ou para chamar pro futebol, pro clube, pro bar (“não tem mar, bora pro bar”), pra caminhar no parque, enfim, fazer alguma coisa útil nesses dias que chamam de “não úteis”.  

      Pois na semana passada eu falava sobre isso com um conterrâneo baiano, recém-chegado a Brasília, e aí ele me contou que um árbitro de boxe, quando vê um lutador na lona, sem força para levantar, também faz esta pergunta ao pugilista caído: “Onde você está?”

    Se o atleta não souber responder – ou disser que está em local diferente de onde está -, logo é declarado perdedor. É que o erro na resposta seria a “prova” de que ele teria ficado tonto de tanto apanhar, a ponto de nem saber onde está.

    Não sei regras de boxe, e nem desse esporte eu gosto, mas acreditei nessa prosa. No entanto, fosse eu o lutador e um árbitro me indagasse isso, na hora eu pediria para ele ir fazer a pergunta lá no Posto Ypiranga, que é onde todo mundo pergunta as coisas.

    E o amigo me contou mais: disse-me ele que, certa feita, um pugilista brasileiro estava lutando – e apanhando – em Las Vegas; quando o brasileiro foi à lona, o árbitro americano perguntou: “Where are you?”, ou seja, “onde você está?”

     O brasuca, segundo meu amigo, havia apanhado mais que bife de pensão, mas ainda parecia sóbrio, tanto que respondeu “I’m in the ring” (estou no ringue). O juiz, porém, julgou que a resposta estava errada e deu o brasileiro como perdedor.  

     Para o árbitro, a resposta certa seria “I’m in Las Vegas”, ou seja, “eu estou em Las Vegas”.

    Pois nesses primeiros dias em Brasília, meu amigo descobriu que essa perguntinha também é feita por agentes de trânsito, quando um motorista se recusa a soprar o bafômetro.

     Para saber se o condutor está bêbado ou não, em dado momento o policial pergunta: “Onde você está?” Caso o motorista não saiba – ou diga que está na Rua X estando na Praça Z -, aí é multa na certa, além da retenção da carteira e o início de uma via-crúcis.

      Pois não é que aconteceu com ele? Em seu segundo dia em Brasília, foi parado numa blitz e recusou o bafômetro. Lá pelas tantas, o guarda indagou “Você tá onde?”. O amigo riu para si mesmo e pensou “esta é fácil”, pois lhe veio à lembrança o episódio do pugilista brasileiro, que respondeu o local (ringue), quando deveria responder a cidade (Las Vegas).      

       Ele estava na saída de um boteco de nome “Beirute”, ali na SQN 107 ou Super Quadra Norte 107. Ainda que soubesse este dado exato (e não sabia), ele não iria dizê-lo. Também não era besta de falar que estava em Beirute – muito menos “no” Beirute (um bar!).

      Lembrando da “lógica” do árbitro do boxe, ele teve a certeza de que a resposta certa seria o nome da cidade. Aí, então, sem contar conversa, crente que estava abafando o caso, com a resposta exata, ele falou convicto: “Oxente, seu guarda, estou em Brasília”.

      Mas o guarda, impávido que nem Muhammed Alli, julgou errada a resposta, mesmo estando em Brasília. Para o agente da lei, a resposta certa seria o código alfanumérico SQN 107, típico endereço brasiliense. Ou o nome por extenso: Super Quadra 107 Norte.

         Embora adotem a mesma pergunta, o guarda brasiliense e o árbitro americano julgam diferente. Nos “Isteites”, o brasileiro respondeu o nome do lugar (ringue) e o árbitro queria que fosse a cidade (Las Vegas). Já no DF, o baiano falou a cidade (Brasília), mas era para falar o lugar (SQN 107).

       Pois bem: como essa pergunta é a primeira coisa que os amigos me falam quando me ligam no final de semana, adotei a prática de fazer o “check-in” aqui no Facebook. Para onde quer que eu vá, lá está o check-in: Restaurante Coisas da Terra, CCBB, Chopin, Bar do Calaf, Libanus, Devassa, Pontão, Sovaco de Cobra…

       Nesta quinta, porém, como não era sábado nem domingo, eu não fiz check-in. Estava no trabalho, no Anexo I do Palácio do Planalto. E foi justo na hora em que eu estava no sanitário, que o mesmo amigo me ligou: “Tá onde?”

        E agora, o que responder? Que estava em Brasília? Entre os paralelos 15 e 20? Ou entre o Atlântico e o Pacífico, na América, num claro instante? Com um amigo, contador de histórias – e baiano, ainda por cima – eu podia brincar, embora a situação não estivesse para gracejos.

          – Tô no gabinete – respondi, a voz apertada, a boca abafada junto ao celular, esperando que ele desse o papo como encerrado.

          – No gabinete da Dilma? – ele insistiu.

           Vou revelar uma coisa: nessas horas, nesses locais, não tem educação certa, ainda mais de amigo para amigo. Então eu falei que estava ****, pedi para ele ligar mais tarde e desliguei o celular. Até agora ele não ligou. Enquanto isso, eu decidi: de agora em diante, toda vez que for ao “gabinete”, vou fazer check-in. E não vou levar o celular.

        O lado bom da história (pelo menos para mim) é que, embora o conterrâneo tenha ganhado uma multa em Brasília e o pugilista brasileiro tenha perdido a luta em Las Vegas, eu pelo menos ganhei essa historinha para contar.

                                                                                                                         (marcelocronista@gmail.com)

                 “Curta” também no Facebook > https://www.facebook.com/#!/marcelo.torres.39

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