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NA VENDA DO VELHO IMIGRANTE – DE NILZA AMARAL – SÃO PAULO – BRASIL

NA VENDA DO VELHO IMIGRANTE

 

 

 

Todos os sábados à tarde, o espetáculo acontece. O homem montado ao contrário no pangaré mambembe, agarrado ao rabo do animal, sai pelas ruas do vilarejo, na demonstração gratuita aos poucos passantes que param para um momento de riso. Porém, absortos em seus afazeres, retomam seu caminho, sem atinar porquê aquele caipira de alpargatas, calça rancheira e chapéu de palha, atravessa o vilarejo todos os sábados à tarde, fazendo as palhaçadas em cima daquela égua magra.

O ponto de partida e de chegada do caipira montador, é a venda do velho imigrante __ cheio de nostalgia de sua Veneza, das gôndolas e do cheiro do mar, da sua terra natal da qual fugira devido à inundação que quase engolira a ilha no ano dezoito. O velho cobra caro pelo gole de cachaça ofertado aos fregueses de fim de semana, os sitiantes que vêm comprar suas mercadorias para abastecer seus sítios. A cobrança é em performance, não em dinheiro. É o ônus pela felicidade que tem essa gente humilde de poder permanecer em seu país, ignorantes às ameaças políticas ou catástrofes da natureza.

Depois do quarto ou quinto gole de fernéte, ou no terceiro copo de cachaça, o sitiante faz a vontade do dono da venda, e distrai sua cabeça dos pensamentos da terra de origem, bancando o palhaço de circo, enquanto sua mulher de pele curtida pelo sol da lavoura, com as roupas domingueiras, meias soquetes com os canos comidos pelas alpargatas, espera pelo final do espetáculo de cabeça baixa e olhos fixos no chão. Cada vez que o marido passa agarrado ao rabo do cavalo, imitando os cavaleiros de rodeio, puxando a rédea, fazendo empinar a bunda do animal que relincha de dor a cada puxão do freio, disparando coices para todos os lados, a mulher estampa na face um riso amarelo e insosso. Não é um riso de vergonha ou de opressão. Talvez um amuo de humildade.

O sitiante, consciente de sua responsabilidade de bêbado, com uma das mãos agarrada ao rabo do animal e a outra à crina, ao chegar à porta da venda faz evoluções arriscadas terminando o espetáculo invariavelmente com uma queda espetacular. As evoluções despertam o riso adormecido do velho vendeiro, e tudo se finda sempre com a internação do sitiante na santa casa do lugar, o único hospital disponível. Então se dando por satisfeito, o vendeiro enxota a mulher com as suas mercadorias, ¨xô, xô, xô, vada via,vada via¨. Ela atrela o cavalo velho à carroça das compras e vai providenciar os cuidados médicos para o marido. O vendeiro descarrega a sua infelicidade nos sitiantes e estes usufruem a bebida do vendeiro. Pode-se classificar essa relação como uma relação politicamente amistosa entre duas raças.

Depois da apresentação insólita, o velho e o cônsul __ também oriundi __ sentam-se sobre os sacos de batatas à porta do armazém e relembram passagens da terra natal, carregados de emoção, sentimento e saudade. __ Alora sono um vecchio, non torno piu, desabafa o vendeiro.__ É, somos velhos meu amigo, jamais voltaremos, arremata o cônsul.

Muitas vezes as palavras são substituídas por longos silêncios e sentidos suspiros, logo suplantados pelos comentários sobre os patrícios recém chegados, pelos apartes sobre a riqueza dos mais antigos lá na capital. ¨Temos até políticos¨, ¨temos o paisano dos museus¨, e a conversa sempre termina com os elogios do cônsul ao amigo vendeiro afirmando que este conseguira um pouco do poder da vila, pois afinal é dono dos prédios da prefeitura, da igreja, e da gleba do cemitério. __ Mas falta reconhecimento, diz o vendeiro, reconhecimento. __Reconhecimento e o cheiro do mar, completa o cônsul.

Mais tarde, quando a noite cai e o cônsul se retira, ele recolhe das portas os sacos de estopas de mantimentos, e aí sim, uma pontinha de remorso pela humilhação imposta aos fregueses simplórios, pica-lhe o coração, mas somente por segundos, logo volta toda a inveja pelos nativos da terra e ele sorri feliz pensando nas palhaçadas fazem por um copo de aguardente. Então engole seu fernéte, coloca no velho toca-disco suas óperas italianas, principalmente, a Tosca, e noite sim noite não, toma seu banho quente.

Giulia, a mulher do vendeiro, procura a sua terra natal todos os dias pelas ruas da cidadela Não sabe quem é, ou quem foi. O espelho lhe mostra uma figura que ela não reconhece: uma bruxa gorda de cabelos brancos. Ela procura pela sua antiga imagem: a bela italiana de pernas grossas e cintura fina. Toda a manhã, depois de tomar o desjejum feito pela empregada, percorre quilômetros em busca da casa de seus pais e de sua identidade. Pára horas, defronte o riacho que divide o lugar, achando que aquele é o Tibere de sua Roma, senta-se sob uma árvore e conversa muito com formigas, ratazanas, borboletas, conta-lhes fatos passados, de como sente falta da sua verdadeira vida que ela não mais sabe onde está. Volta sempre em segurança pelas mãos de algum morador já ciente das suas andanças infrutíferas, para o seu velho marido.Este a olha ternamente, acaricia seus cabelos brancos e compridos enrolados num grande ¨birote¨, e a conduz cocuidado à cadeira de espaldar alto, ¨o trono de minha rainha¨ ignorando o riso abobalhado da mulher que o contempla insegura.

Passa a noite ouvindo suas óperas até o sono bater forte. Então, o velho conduz a mulher até o seu quarto e coloca o terço entre seus dedos trêmulos. E ela, fica ali, tentando lembrar o que se faz com aquela fileira de contas que todas as noites o homem que se diz seu marido, enrola em suas mãos, dizendo¨reze, reze, para recobrar a memória¨. Ajoelhada ante a imagem da santa, ela passa as horas, sem saber se é noite ou dia, até que sentindo dor nas pernas, joga-se na cama.

Porém, um toque de magia se instala nessa noite surpreendente. Ela não se joga na cama quando vem o cansaço. Fica ali, extenuada, as pernas doendo, os olhos ardendo, apertando aquelas contas, querendo extrair delas a sua significação.

Ele apronta tudo para o ritual do banho, esquentando as roupas e a toalha na chapa do fogão elétrico, preparando o copo duplo de fernéte, abrindo ao máximo a água da torneira da banheira, amarelada e antiga, até a fumaça da água quente inundar o banheiro e a cozinha contígua. Então mergulha seu corpo velho e dolorido na água relaxante, e fica horas submerso, bebericando o fernéte, perdido nas recordações no meio a fumaça abundante, pedindo a Deus que lhe dê uma morte sem a dor da vida.

Nessa noite, diferente das outras, um aroma de mar, invade o quarto. Ele liga o seu rádio Galena, uma relíquia. trazida da terra natal e que funciona quando a sorte ajuda.Entre chiados e interrupções ouve o locutor dizer: ¨ a escória dos países estrangeiros está invadindo o país, os imigrantes, escorraçados de sua pátria de origem, vêm dar com os costados em nossa terra trazendo na bagagem crimes sem punição e costumes inferiores¨.

O velho imigrante que não fora criminoso no seu país, e crescera ouvindo seu pai cantar óperas, dá um murro no rádio que para sua sorte em vez de cair na água se estraçalha na porta do banheiro, causando um barulho infernal no recinto silencioso e fechado.

Infeliz, o velho dobra a dose do fernéte. E mergulha de cabeça na água tépida, inunda-se de um estranho odor de maresia, e permanece ali um longo tempo.Tempo suficiente para perceber estranhos ruídos de carroça, alarido de vozes, som abafado de bate-estacas, gente se instalando..Ante seus olhos abrem-se imagens futuristas de ruas se formando, vilas aumentando, grandes fazendas se compondo, o dinheiro surgindo. Ainda mergulhado na água assiste as imagens se sobrepondo, a prosperidade chegando, banqueiros se alojando. As cenas persistem, e ele reconhece seus conterrâneos contribuindo para o crescimento da cidade, um deles o que até fundara museus, trouxera exposições de todo o mundo para esse país que os acolhera como a escória, nada diferente do modo que haviam recebido os escravos da África.A água amorna-lhe o corpo, relaxa-lhe os sentidos, e ele se revê jovem, esperançoso, casando-se com sua Giulia, aumentando sua família, doze filhos brasileiros, que são marceneiros, alfaiates, comerciantes, e contribuem com seus esforços para a riqueza da nação. O filme de sua vida passa ante os seus olhos até o momento em que sentindo uma dor lancinante no peito ele os fecha para sempre.

No seu quarto, Giliua ainda tenta descobrir para o quê servem as continhas enfileiradas. Então sem mais nem menos as palavras da oração brotam-lhe do cérebro e saem pelos lábios e ela recita a Ave Maria com devoção, sentindo umedecerem-se os seus olhos e os da imagem de Nossa Senhora, umidade essa que se transformando em lágrimas de felicidade, encharcam o chão ladrilhado de vermelho. De repente, as palavras esquecidas no fundo da memória aparecem aos borbotões, faíscas de lembranças da sua

terra natal, do navio que a trouxera ao país estrangeiro, do marido que tanto ama, de seus filhos. Mal acreditando na graça recebida, reza fervorosamente, todas as orações que sua família italiana orava unida.E então sim, o anseio de tantas recordações é demais para o seu coração.Abraçada à imagem, ali permanece estática, até que o aroma da água do seu rio italiano predominante no ar, cesse por completo.

O estalido do rádio quebrando-se contra a porta volta no tempo nessa noite mágica e o barulho agora ensurdecedor, estremece a casa, entorna a água do banho, que se junta às lágrimas de Giulia e às da santa, inundam a casa, transportam a banheira pelos cômodos todo, pára no quarto de Giulia, recolhe-a e a imagem da santa, em seu bojo, juntamente com o corpo passivo de Giuseppe. Aquele barco improvisado navegando nas águas salgadas das lágrimas misturadas à água doce da banheira, serve-lhes de leito.Ao amanhecer, os filhos chegam com uma surpresa para os pais. E encontram o casal inerte, com um riso de felicidade estampado nas faces, mais a imagem da santa vertendo lágrimas, boiando na banheira antiga na casa inundada. Não estranham o acontecido, afinal ainda perdura a mágica do tempo. São enterrados, em um grande ataúde, dignos de um imigrante que gosta de óperas. A imagem da santa vertendo lágrimas é colocada sobre o túmulo. Como homenagem ao vendeiro, os sitiantes chegam, embebedam-se com aguardente, e seguem o féretro fazendo as habituais palhaçadas sobre os seus pangarés, diante dos olhares das mulheres de pele curtida ao sol da lavoura, orgulhosas de poderem contribuir para a regozijo do acontecimento. Dessa vez os passantes param para prestar a última homenagem ao casal que se fora, e reverenciar-se aos pés da imagem da santa que chora.

A pedra de mármore, a surpresa que não chegou a tempo, serve como lápide, e nela se lê: ¨A Câmara Municipal homenageia o senhor Giuseppe Ancona e família, e os considera cidadãos brasileiros em reconhecimento por haverem contribuído para o progresso da cidade.¨

O último a se retirar é o cônsul italiano, abatido e desapontado. Afinal o pedido feito à Câmara dos Vereadores não fora atendido em tempo útil.

Ao acariciar a lápide com saudade, um odor de maresia penetra-lhe as narinas, os botões de rosa recém plantados abrem-se em flor, ao mesmo tempo em que uma grande paz acalma o seu coração.

Passando pelo portão de ferro, não resiste à saudade e vira-se para um último olhar.E dessa vez lá estão Giuseppe e Giulia abraçados sobre a lápide do túmulo. Acenando daquela distância, o casal lhe parece extremamente jovem. Ainda perdura o estranho toque de magia.

Nunca a nostalgia da pátria do era tanto no coração de um cônsul.

Nilza Amaral, ficcionista brasileira.

N  O  T  A

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