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Não quero mais – Cinthia Kriemler – Brasília – Brasil

Não quero mais

 

A vida me bateu demais. E todo vez eu me lambi o sangue. Levantei, vesti vontade nova, dei as duas faces da cara de pau à palmatória. Pau com pau não devia doer. Mas doía. Depois de um tempo, lambi o sangue, levantei e vesti fingimento. Por isso deu pra ir brincando de pique-esconde com as porradas. Pratiquei equilíbrio na corda do “talvez”, bamba, bamba. Achando que podia. Podia nada. Aí, caí pela última vez e cansei de levantar. Cansei de porrada.

Agora, a vida ainda me bate e eu lambo o sangue. Mas aprendi a gostar do sabor agridoce e da cor de esmalte de festa. Não finjo mais; não pergunto por quê. Nenhum desejo traidor que insista chamados ao meu corpo desistente. E para falar a verdade, nem que eu quisesse. Os membros já não conjugam o obedecer e a cabeça decepou-se do sentir. Não me levanto mais; ficar em pé traria cor e sons.

Nem mais truque, nem cartola mágica. Só uma vareta quebrada, sem magia, cobrada a espetáculo. Mais nenhum engano. Só o chão, firme, com gosto de sangues. Vários, misturados, cheirando insuportavelmente a histórias. Não quero sabê-los. Não interessa. O tratado do chão é cada um por si e ninguém por ninguém. E é bom ficar assim, aqui, sem movimento.

Eu não me sei bicho, mas posso ter virado. Um bicho aleijado. Ou de pelúcia encardida. Mas acho que não. Se fosse bicho pra valer rastejava e ia farejar a porta, tentando abrir, fugir, expor (-me). Ou tentava alcançar as janelas, pra fazer o focinho viver do cheiro lá de fora. Não, não sou bicho. Não rastejo. Só não quero levantar. E nem usar as mãos para girar maçanetas. Elas entregam salmos, óperas, gargalhadas, gente. Fraudes. Não quero mais. Já quis. Muito. Meus muitos sempre foram em excesso. Mas isso foi antes de eu perceber que a vida me batia. Batia demais. Antes que o sangue vermelho tivesse virado estas feridas grossas, pretas, cascudas. Quando tudo vira cicatriz, a vida para de bater.

 

 

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