Você está em: Inicial » Angola // Brasil // Cabo Verde // Crônicas // Galiza // Goa, Damão e Diu // Guiné-Bissau // Macau // Moçambique // Países // Portugal // São Tomé e Príncipe // Timor Leste » NATAL-2011- de AUGUSTO MONTEIRO- GRAFOPEL-PORTO -PORTUGAL

NATAL-2011- de AUGUSTO MONTEIRO- GRAFOPEL-PORTO -PORTUGAL

“A experiência demonstra que os homens e as palavras são incapazes de governar os acontecimentos”
Nicolau II da Rússia

Crónica de Natal!

Movido por um indeclinável sentimento de fé, aqui estou de novo a celebrar a mágica alvorada do começo da nossa civilização cristã – o Natal!
Inseguro e confuso, confesso que em outros tempos, de um passado que abrange caminhos sem fim de recordações, já o esperei com o coração cheio de encantamento, a pulsar de alegria. Tempos de presente sem sobressaltos e de futuro sem credo na boca, que a memória retém com uma sensação de desconforto pela condição infeliz a que chegamos, vitimas da fúria de loucura de homens, que não estando à altura das tarefas e responsabilidades que assumiram por vontade própria, despudoradamente, falsearam a nossa perspectiva de vida e deixaram o nosso destino colectivo preso por um fio.
Neste Natal, a chama que antes aquecia o meu coração vacila e apaga-se. Olho em meu redor e quanta desilusão humana diante de um país decrépito e impotente para enfrentar as ameaças do presente e do futuro, em que parece que tudo está perdido. A angústia que me envolve de o ver crucificado pelos desvarios de uma classe política perdulária, que levianamente destruiu os bens colectivos de uma comunidade inteira, cobre-me de desânimo e indignação. Defraudados do melhor que a vida nos podia dar – uma existência digna em que todos pudessem beneficiar do mesmo grau de prosperidade – temos de tomar consciência de que foram as utopias estúpidas de trinta e sete anos de desatino, que transformaram o país num organismo agonizante.
A insensatez de uns e a incompetência de outros, colocaram-nos perante a perspectiva de um flagelo, que ao que parece, não há nenhum meio de lhe escapar. Pelo menos, enquanto estivermos ameaçados internamente pela loucura megalómana de tecnocratas teóricos, que a julgar pela situação actual, nos mostraram toda a estreiteza dos seus limites; enquanto monolíticos kamaradas, agarrados a ideais anacrónicos e fiéis a formas de pensar e de sentir, em que a única coisa que os move é o apego a direitos e privilégios, que não se coadunam com a realidade de uma economia arruinada, não deixarem de continuar a viver no passado e de congeminar ódios e radicalismos que toldam a atmosfera mental da sensatez. Direitos e privilégios que não são um princípio absoluto e que foram resultantes de Leis em período revolucionário, aplicadas pelo ódio e consentidas pelo medo; formas de pensar e de sentir, que cavam um abismo entre  bom senso e irresponsabilidade. Um tumor maligno que só poderá ser eliminado quando o país, no seu todo, aprender a viver de forma absolutamente racional, adaptado às condições e mudanças que são necessárias para evitar o desastre final; quando as instituições funcionarem e a lei imperar; quando a classe política e tudo o que mexe à sua volta aprender a comportar-se de maneira sempre mais conforme com os grandes princípios da verdade e não da mentira; sem jogos de interesses partidários, sem favores ao amiguismo e sem alheamento à  corrupção, admitindo que por cada ilicitude seja admitido um gesto reactivo da justiça e que esta funcione, descomprometida e igual para todos.

Chegados a um tempo em que não há dinheiro para nada e todos andamos ó-tio-ó-tio, só motivos de ordem egoísta podem justificar que uma cambada de primários vestidos de gente, que também, em muitos momentos, colaboraram de mãos dadas para o descalabro da economia, sem escrúpulos de consciência e alheados do vazio que nos cerca, ainda reclamem direitos que ninguém pode garantir, ao mesmo tempo que numa agitação frenética fomentam sentimentos de crispação e hostilidade através de greves – uma irresponsabilidade que vai sacrificando ainda mais a colectividade inteira.
Dá vontade de chorar de raiva ver tanto desbragamento em gente sem vergonha, que vendo o desastre que testemunha, no egoísmo do conforto que sente, obscenamente se alheia da angústia daqueles a quem falta o pão na mesa.
Reclamar ou inventar direitos e benefícios quando o país, hipotecado até à raiz dos cabelos e de mão estendida, procura o equilíbrio entre as exigências dos credores e o alivio para as suas fraquezas, é uma indignidade cívica e uma irracionalidade que mostra bem o perfil singular de kamaradas & Ca., escravos de uma fixação mental que os inibe de qualquer rebate de consciência lúcida, que os abane a partilhar de boa fé as horas amargas que o país vive.

No meio das desgraças que minam Portugal, o seu instinto de conservação tem de continuar acordado. Nas actuais circunstâncias, em que o futuro sonhado virou ficção, não pode resignar-se. Tem de abrir caminhos  e rasgar horizontes que reabilitem a sua razão de ser. O principal obstáculo a vencer é recuperar-se progressivamente do estado de falência a que o conduziram os políticos, os governos, as leis, os legisladores, que não sabendo encontrar o equilíbrio que as circunstâncias impunham para que fosse travado o caminho da aventura para onde, teimosamente, o empurraram ao longo dos últimos trinta e sete anos, cavaram a condição infeliz de um povo, que cedo ou tarde tinha de sofrer as consequências de tanta orgia ilusória,  que o reduziria à condição de pedinte.
Ameaçado de um triste fim e a viver as angústias de sucessivos actos de loucura, precisa agora de ser lúcido e capaz de, com sacrifícios compartilhados, tentar libertar-se  da corda que traz ao pescoço e alterar o rumo de uma geração sem história.
O que é aberrante é ver personagens, que colaboraram activamente na sua progressiva degradação, bem instalados nas cadeiras da administração pública e em cargos importantes na Europa, assistindo com indiferença, sem vergonha e sem remorsos ao sofrimento que provocaram naqueles que ficaram sem pé na vida.
Rói-me não sei que sentimento de repulsa ver quem, aos 84 anos de idade, continue levando uma vida de trabalho iniciada aos 11 e se orgulhe de ser um contribuinte activo, e a postura radicalmente oposta de pessoas que nos rodeiam, que nunca trabalharam nem deram qualquer contributo social, a viverem sob o abrigo protector de subsídios, a troco de nada. Do mesmo modo, no meio de outras evidências, o desairo de gente ainda jovem e saudável a gozar de reformas antecipadas, e de políticos, que em apenas três legislaturas perpetuaram chorudas aposentadorias mais subsídios de reintegração, e tudo isto à custa do  monstro da dívida pública, sempre a correr e a crescer até ao dia em que os credores, diante do desvairamento, lhe barraram o caminho.
E são muitos destes beneficiários que, de forma descarada e colectiva, dão voz contestatária nas manifes que volta e meia enxameiam as ruas e praças deste desditosa pátria.
E mais não digo. É noite Santa e quero festejá-la com espírito natalício – e apagar da lembrança a mágoa de ver o meu país pobre e desiludido.

Natal! Dois mil anos de Belém celebrados através dos séculos; dois mil anos de luz iluminando a escuridão do mundo, anunciando em cada Natividade um novo nascer e renascer de esperança.
Dois milénios de vivência humana de povos e raças, que embora não sendo iguais e  subsistindo em circunstâncias diferentes, que implicaram muitas vezes grandes sofrimentos, fortificaram a sua coragem contra a adversidade, irmanados pelos mesmos sentimentos de fé nos seus corações, que os torna dignos da grandeza da sua Igreja Cristã.
Natal! Palavra que ecoa como uma mensagem divina de amor e paz na terra entre os homens de boa vontade; palavra de fraternidade que um mundo abúlico, desgarrado, transfigurado, sem códigos de moral, com um grande vazio de amor e solidariedade não ouve nem entende, mesmo quando as circunstâncias impõem recordar que está ameaçado pela sua própria incapacidade de ver o outro como um todo de uma natureza humana igual à sua, sujeito às mesmas leis inexoráveis da vida e da morte.

Olho a noite lá fora. No céu escuro brilha uma estrela. É a estrela da minha infância onde moram todos os saudosos ausentes deste meu Natal.
Ai que saudades de um passado que abarca lembranças sentimentais de muitas perdas irremediáveis de familiares queridos e amigos desaparecidos, ditadas pela vontade de Deus.

Feliz Natal, meus Amigos!

augusto.monteiro@grafopel.pt

Deixe um comentário





Voltar à página anterior Imprimir esta página

Patrocinadores

  • logo_aa

Design e Desenvolvimento - MagicSite Internet Solutions