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SORVEDORES DE SONHOS – POEMA De BAUDELAIRE e PROSA POÉTICA DE NILZA AMARAL

 P O E M A   D E   B A U D E L A I R E

S o r v e d o r e s   d e   s o n h o s

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:

“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,

Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,

Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custou, na colina incendida,

De causticante sol, de suor e de labor,

Para fazer minha alma e engendrar minha vida;

Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo

À goela do homem que já trabalhou demais,

E sei peito bastante é doce tumba que acho

Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retirar a domingueira toada

E esperanças chalrar em meu seio, febris?

Cotovelos na mesa a manga arregaçada,

Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te da esposa embevecida;

A teu filho farei a força e a cor

E serei para tão terno atleta da vida
Como o óleo e os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei,vegetal ambrosia,

Grão precioso que lança o eterno semeador,

Para que enfim do nosso amor nasça a poesia 

Que até Deus subirá como uma rara flor!”

B a u d e l a i re

P R O S A   P O É T I C A   D E   N I L Z A   A M A R A L   –   S Ã O   P A U L O   –   B R A S I L

S O R V E D O R E S    D E   S O N H O S

Louca era aquela aldeia onde os homens não podiam provar do produto que fabricavam. Mais loucos os que dele provavam e tornavam-se seus eternos adoradores.Pois cantado em prosa e versos, o vinho corria o mundo e os homens se inebriavam com o néctar da saúde e do amor.
Ambrósio chegara clandestino de navios errantes para o porto seguro da Ilha da Madeira. Ali seu destino seria transformado. Depois do menino como aportara, a vida o presentearia com o homem que havia dentro daquele corpo camuflado de adolescente.

Oriundi procurava o seu lugar no mundo. Originário da Itália, escolhera Portugal para se instalar. Muitos dos seus haviam feito o mesmo trajeto e somente haviam encontrado a felicidade.
E além da bebida dos deuses, a mulher dos sonhos de amor de Ambrósio também seria presente dos céus. Porém, muita história correria pelos tempos antes do final.
Benditas vinhas de frutos cheirosos.
Ela estava ali, era presente da terra com seu olhar transparente como os bagos da uva Malvásia, os cabelos claros como as folhas das parreiras e o corpo sinuoso. Seu olhar fervia a cada olhar da moçoila enviada por Deus.

Ah, se ele pudesse. Forraria com folhas de ouro o seu caminho, abrigaria seus frágeis ombros com o manto carinhoso do amor, compraria guloseimas para ela se fartar de doçuras.
Proibidos estavam os colhedores de saborear da uva roliça qual quadril arredondado de fêmea, nem podiam mordiscar a pele fina e verde da fruta adolescente que se maturava pronta para o sacrifício de fazer a felicidade dos homens, prestando culto ao deus Baco.
Alienadas criaturas que lavoravam sob o perfume das parreiras abarrotadas, e insanas se tornavam inebriadas pelo perfume da fruta sensual e quente.
Culpada era a ilha, não fosse ela chamada Câmara dos Lobos, não fosse ela o pedaço de terra rodeado de mar, de onde não ousariam escapar, aprisionados pelos sentidos, pois presos ficavam a ela os que decidiam pelo desejo e pela concuspicência, deliciosamente cruéis.
Responsáveis também haviam sido há tempos, lá pelos idos do século dezoito, as armadas britânicas que abarrotando os porões com a bebida, foram os primeiros a se inebriar com o aroma especial que deles desprendia e assim fazendo a fama da baga.

Havia os que envelheciam juntamente com os barris em primitivas estufas, receosos de abandonar ao relento o processo maravilhoso. Pudessem optar por pena de morte como Clarence, de Shakespeare, optariam fatalmente pelo afogamento em um daqueles barris de vinho resultantes da uva inebriante, do fruto sensual, a Malvásia, ou trocariam a alma por um cálice da bebida do mesmo modo de Falstaff em Henrique IV.
Nada disso sabia Ambrósio quando decidiu partir para a Madeira e ganhar o dinheiro colhendo uvas. Seu sonho era viajar para terras distantes, do além mar. Queria reconhecer as suas origens, saber para onde sua gente havia ido. E navegando clandestinamente escondido no navio que o levaria ao seu destino, logrou chegar, embora solitário e desprevenido.

Porque sem cautela são os adolescendos, os iniciados na experiência da vida, na roda da fortuna, bem aventurados todos eles bentos com a água da paixão
Primeiro apaixonou-se pela uva. Não por seu sabor que ainda lhe era desconhecido, mas pela sua forma e transparência. Logo foi avisado da proibição de provar do fruto, do mesmo modo que Adão e Eva foram avisados sobre a maçã no paraíso distante, palco do primeiro pecado por desobediência. Se essa transgressão ocasionaria a expulsão daquele Éden, aquela, mais terrena, lhe valeria a perda do emprego.

Portanto Ambrósio ateve-se às regras. E contentava-se com o aroma, o toque, a sensualidade do pomo, sentindo-se um anjo inocente no ardil do desejo, o sal do mundo. Se Eva não soube resistir à serpente insidiosa, ele saberia respeitar os mandamentos do lugar.
Mas não saberia resistir ao anjo em forma de mulher enviado pelo deus Baco, sendo que os deuses desde tempos remotos entendem muito de tentação dos homens.
E como se apaixonou pela uva, apaixonou-se pela mulher entendendo então porque se comparava uma bela dona a uma fruta madura e doce.
Pois era ela a sensualidade em forma de donzela. Avaliada se fosse à doce fruta não ganharia na comparação mas se igualaria na formosura.Comparava seus cabelos às folhas das parreira __ fartos cachos cônicos, densos, corola dourada em volta do rosto; os seios firmes aos bagos eptíco-globosos, convidativos ao toque; o corpo à consistência dos galhos, cheiroso e ondulante, quando beijado por brisa suave sugerindo fertilidade; os olhos verdes, à transparência da uva, e as mãos, às de fada colhendo cachos da parreira como se fossem jóias raras.

Pobre Ambrósio. Se no jardim do paraíso houve a eva transgressora e o adão curioso, ali naquele campo cheiroso havia Ela.  Ela, o céu azul, as verdes parreiras e Ambrósio, o adolescente de hormônios pululantes.

Se ignorante não fosse sobre a história, Ambrósio saberia que Ela, a donzela seria rainha como a Malvásia já o era com sua fama correndo mundo.
A primeira, a ganhar o trono no coração do apaixonado e a outra, de há muito, reinando no Mediterrâneo e se estabelecendo nas ilhas paradisíacas da Madeira e das Canárias.

Saberia também que do mesmo modo que a donzela, a ilha da Madeira, ficou famosa pela sua preciosidade cobiçada por reis e nobres, o vinho da Malvásia , doce e cheiroso, sedutor convidativo, como a casta virgem dos campos de uvas.
Nada suplantaria a fama de tal uva, cantada desde os tempos medievais, cuja origem e fim deu-se em terras italianas, reaparecendo na ilha de Creta na Grécia, e exportada para a Ilha da Madeira no começo do século XV.
Alguma informação Ambrósio possuía. Havido lido em catálogos sobre o destino de sua viagem, mas adolescente sem medos, muito de seu destino deixara nas mãos dos deuses.
Deuses organizaram muito bem o mundo. Colocaram belezas com as mais inusitadas formas e sabores em todos os cantos do universo. E através dos ventos tornou-as conhecidas e desejadas por todos os homens. Aí começa a história da paixão. Se a fama da uva foi celebrada por poetas
e dramaturgos na Europa do século XV, se o veneziano Caldamoso e o outro italiano, Giulio Landi, já haviam proclamado a majestade da Malvásia, esta se estendeu até os dias atuais, com fiéis adeptos de sua fama.
O tridente do ciúme espetou o coração de Ambrósio na noite do baile oferecido aos colhedores da uva naquela noite de São Martinho com a lua cheia clareando o céu. Apesar da noite lá estava Ela, branca como o alvorecer. A música inebriando os sentidos. Tudo pronto para transfigurar o coração de um jovem.
Os solteiros cobiçavam-na ostensivamente cada qual querendo abarcar seu coração da maneira mais arrebatadora. Os comprometidos a admiravam com olhares de distraídos tentando demonstrar à companheira ao lado o tanto de indiferença que a donzela inspirava.
Ela saltitante e lépida, indiferente a quaisquer olhares, dançava sozinha, ou com as outras colhedoras, importando-se bem pouco com os trejeitos masculinos que invadiam o salão. Uma mocinha fazendo-se mulher.
Ambrósio sofria.
Com tanta concorrência, ele tão tímido, quase imberbe, pensava em como conquistaria a rainha da festa, se nem a mais insignificante garota presente o olhava interessada.

Assim é a sedução. Insidiosa, vai se infiltrando, vai se apoderando dos sentidos, se transformando em desejo até se estabelecer a paixão. Uma vez estabelecida arrasa os sentidos que buscam a satisfação do desejo.

O marco foi o baile. Os homens já não se importavam com a colheita. Mais do que o cheiro da Malvásia queriam sentir o aroma da donzela, palmilhar o mesmo pedaço de chão que ela, roçar-se em seu corpo, não escondendo a vontade de apertá-la nos braços.
Na colheita do dia seguinte, a agitação do baile da noite anterior passou a ser imperativa. Muitos olhos a seguiam por toda a parte. Tão intensamente que fortes dores sem explicação picavam sua nuca fazendo-a parar por instantes o trabalho para massagear o lindo pescoço alvo. Então todos paravam, esperando pelo sinal para recomeçar. O sinal eram as mãos de fada reiniciando o toque de seus dedos de veludo na frescura da uva.
Houve tardes em que moçoilos desistiam do trabalho suspirando de desejo por aquela formosura. Outros a seguiam mansamente, sem alarde, oferecendo-se para ajudá-la a carregar o fardo do dia. Indiferente, ela agradecia e seguia cantarolando alegre pelos caminhos da videira.
Entre esses estava Ambrósio. Ambrósio, que já não sabia o que era uma noite de sono, cujos olhos apertados mostravam o sofrimento de
noites de vigília guardando sua jóia, receoso de que outros a surrupiassem.

De vez em quando uma discussão chamava a atenção do administrador, que corria a apartar os dois briguentos sabendo muito bem porque brigavam e suspirando ele próprio de amor pela bela donzela inatingível.
Foi quando os donos da vinha resolveram fazer uma preleção aos trabalhadores. Sabendo que muitos eram aventureiros à cata de trabalhos temporários, justo seria informá-los a respeito do valor que este merecia.
Então na noite de lua cheia, os ânimos mais acalmados, sentaram-se todos ao redor da mesa da casa grande, com um grande cesto de pães de trigo no centro, copos de estanho à maneira medieval, tonéis de vinho como acompanhamento, e os senhores da terra presentes, uma preleção teve início. Falaria o senhor mais velho da família.
Depois de muitos ensaios combinados com espasmos da garganta ele resolveu iniciar o assunto.
__ Senhores, estou aqui para contar uma história. Uma história oficial e uma história de família. Este pedaço maravilhoso de terra que Deus nos deu e que produz essa uva maravilhosa foi descoberto em 1419 por João Gonçalves Zarco e Tristão Vale Teixeira. Nesse terreno virgem produziu-se essa uva maravilhosa, a Malvásia, que hoje vocês colhem sob o seu perfume e a sua delicadeza. O nome dessas encostas ensolaradas onde se cultiva a uva começa do lado sul nas zonas de Campanário, Ponta do Pargo, Câmara dos Lobos e Estreito.

Sendo que nesse ponto da fala um dos colhedores não resistindo ao sono bocejou descaradamente revelando o quanto de descanso lhe faltava, provocando no orador, não a ira, mas a pena, sentimento que o aninou a falar-lhe pessoalmente:
__ Meu amigo, embora as informações lhe pareçam irrelevantes e fora de lugar, por si só, o senhor descobrirá em que solo sagrado pisa, e o quanto seu trabalho o tornará importante.
O bocejador não resistindo à provocação afirmou que todos concordavam com a ideia de que o solo era sagrado pois uma deusa descida dos céus já o estava habitando.
Nesse ponto todos anuiram e Ela, tímida e ruborizada, baixou os olhos em direção ao solo, procurando disfarçar a vergonha. Mas não foram outros olhos, senão os de Ambrósio, que ela procurou assim que se desfez do constrangimento, deixando no coração do rapaz a verde esperança de futuros sonhos felizes.
O senhor das terras aproveitando a sensação de desprendimento de todos continuou falando sobre a excelência da uva, informando que  na Madeira cultivava-se um mil oitocentos e cinquenta hectares aos quais se acrescentam oitenta hectares do Porto Santo. Disse ainda que na parte meridional da ilha estão as melhores castas européias para a produção do gênero. Nesse ponto todos se interessaram. Afinal estavam fazendo parte de um universo integrado dentro do qual cada um fazia a sua parte para completar um todo.

Não querendo se alongar na fala, o senhor das terras convidou a todos para uma taça do vinho exuberante e a uma fatia do pão feito na casa. Ah, o cheiro da uva, o cheiro do pão recém-saído do forno de pedra em forma de ovo, reminiscências do lar, o cheiro da casa de cada um.
A noite foi de confraternização. E ao som do vento, à luz da lua, a alegria reinante, poucos repararam em Ambrósio e Ela, que se não se falaram, disseram tudo o que tinham a dizer na proximidade de seus corpos jovens.

Dia seguinte o esmagamento da uva foi feitos por pés renovados de energia e sabedoria. E nessa azáfama Ambrósio descobriu que ali estava o seu futuro. Descobriu a sua profissão. Então pensou que nada seria melhor na sua vida do que um pedaço de terra, algumas parreiras de malvásia e uma mulher ao lado para completar a felicidade.

Ambrósio era mais um “oriundi” na terra hospitaleira. Como seus pais e seus avós viera de regiões distantes da Itália para lavorar nas terras do sul que os acolhera com o coração aberto. Seus compatriotas estavam em todos os ramos de atividade: agricultura, como esses senhores das vinhas, comércio, ensino, moda. Contavam-lhe seus avós que atravessaram o Atlântico e à procura de melhores oportunidades e concentraram-se no Brasil e em Portugal.
Com os que vieram para Portugal, estava Ambrósio, italiano em terras portuguesas. Haviam se estabelecido e se fortalecido. Cabia a ele agora, a jovem geração, instituir seu futuro. E como todos, ele também preferira o trabalho nos campos a céu aberto e sol no para que ela se fartasse de doçuras.
Mas o dia-a-dia era severo. Com tanto trabalho e canseira, a ternura sempre era adiada para o amanhã.
Sonhos são sonhos. Ela, à noite sonhava com uvas espremidas em seus lábios, escorrendo pelo canto da boca carnuda, descendo pelo corpo nu, e ao seu lado um fauno adolescente sorvia seus sonhos em forma de sumo adocicado. Os sorvedores de sonhos, porque sonhar, não é proibido e é preciso.

Dois adolescentes perdidos num campo de frutos doces, nas vinhas do amor, no meio da multidão, abstraídos, tendo na alma a dor da carne. De olhar em olhar a terra ardia e se consumia solidária no desejo de uma paixão, tão recolhida, que o universo tremeria se a união se consolidasse.

__Sabe minha amada? Quero construir um muro bem alto, para esconder você do mundo. Mandarei fazer um portão de crochê de ferro com batentes reforçados para que você possa enxergar o mundo lá fora, que jamais poderá ser aberto por quem não tiver a chave.
Talvez fossem essas as palavras que Ambrósio diria a Ela, se tivesse coragem de declarar o seu amor.
__ Nessa terra de uvas doces e cheirosas eu o conheci, meu amado. Como essas parreiras aqui plantadas, fincadas na terra para todo o sempre quero germinar o meu amor por você. Aqui será o berço de nossos filhos, os doces frutos do nosso amor. Saberemos resguardar nossa afeição das maldades do mundo, dos olhares cobiçosos, das invejas terrenas. Porque a felicidade é isso. Momentos de êxtase.
E essa seria a resposta de Ela se pudesse ter ouvido as doces juras de Ambrósio.
Porém a vida nos prega peças.
Ambrósio e Ela na flor da juventude talvez ignorassem tal fato. A felicidade cobra caro por momentos de êxtase.

Dia seguinte os colhedores de uva estavam agitados. Uma estranha premonição pairava no ambiente sempre tão calmo e alegre.
Naquele dia algo pairava no ar. Os marrecos grasnavam sem rumo esperneando entre as trilhas da videira. O céu se mostrava num cinza tenebroso.Uma primavera sem gosto azedava o ar.
Dessa vez nem o perfume da Malvásia persuadiu os colhedores ao trabalho.
Faltava a flor do campo que floresce nos vales. Estranhas aves povoavam o espaço abrilhantando-se contra o sol forte da estação. Agouro. Presságio.
Ambrósio esgueirava-se pelos caminhos das parreiras tentando apaziguar seu coração. Que estranha angústia habitava seu íntimo!
Então a notícia aterradora. O campo manchava-se de sangue.  Se a uva era branca, o solo era vermelho como o fogo do pôr do sol.
O grupo aproximou-se ao chamado do administrador.
Ali estava Ela, branca como a alvorada, desprotegida como a mais inocente das gazelas. Não se veria mais o sorriso inocente em sua face de donzela gentil e tímida. Os olhos transparentes como as uvas jamais se abririam para ver o sol ou para apreciar os belos cachos das frutas.

Dessa vez os marrecos corriam espantados, as borboletas voavam para longe.
Ambrósio em desespero não queria as mulheres das vielas observando o corpo inerte de seu amor.  Menos queria ainda ouvir o choro lamentoso das meninas da idade d’Ela.
Afastem-se, afastem-se, gritava descontrolado, deixem que eu desperte minha amada desse sono aterrador, que eu percorra com as minhas mãos o seu corpo inanimado e lhe transmita toda a energia dessa minha paixão oculta, que a faça despertar pela força do amor.
Qual o segredo daquele corpo sem vida?  A quem ela acusaria na ineficácia da morte?  Quem inoculara na donzela incauta o vírus do sono eterno?
Ambrósio sondava os olhares masculinos. Descobria piedade nos mais velhos, mas audácia ainda era revelada nos olhares jovens. Quem a desejaria mesmo sem a vivacidade de seu andar ou a exuberância de sua mocidade?  Quem se trairia pelo olhar de luxúria impossível de dissimular?
No entanto o mundo continuava o mesmo. Flores do campo teimavam em mostrar suas cores alegres quando deveriam estar de luto pelo acontecido. Os pássaros teriam de cessar seu canto e entretando piavam desavergonhadamente sem se importar com a dor do jovem que conhecera de uma só vez o amor e a dor num campo de uvas, a fruta dos céus.

Aos poucos a aglomeração se desfaz.  A curiosidade é saciada. A morta já não chama a atenção.  De que morrera?  Já não interessava, a vida se esvaíra.
A descoberta do motivo ou o culpado da morte não a trariam de volta.
Ambrósio vendo-se só ao seu lado não resisitiu à saudade. Estreitou-a contra o seu corpo sentindo a rigidez da extinção da alma. Sentiu a gelidez de seus lábios sem nunca haver sentido o doce calor do beijo apaixonado. Embriagava-se com a beleza da donzela e em seu íntimo se desesperava sabendo que jamais Ela voltaria à vida. Enredava-se em seus cachos cônicos e sedosos querendo quedar-se ao seu lado e lá passar o resto de seus dias.
Seu coração se perdeu na noite da tristeza embora o sol brilhasse entre as folhas de parreira anunciando o dia claro.
Foi então que o administrador apareceu seguido dos auxiliares para acomodarem o corpo. Seria um enterro sem alarde na calada da tarde, na hora em que o sol morre todos os dias. Porém, Ela, não ressurgiria todas as manhãs. Talvez surgisse à noite fantasiada de lua, distante e inacessível. Talvez viesse povoar seus sonhos como nas lendas de amor. Talvez.

Talvez no meio de seu caminho pela vida ela ressurgisse na pele de Ariadne e com ele se casasse. Porém, como Baco, ele teria que ser um deus.
O enterro foi feito com calma e lucidez. Com simplicidade e mágoa. Como sepultura deram-lhe abrigo sob um céu azul e um sol generoso. Como morada uma cova rasa no terreno das parreiras mais belas.
Os dias transcorriam. O fabrico do vinho continuava: estufagem, envelhecimento, arejamento, clarificação e afinação. Apesar da ausência d’Ela, nada mudara no panorama dos colhedores.  Todas as manhãs os mesmos pés que a haviam enterrado pisavam as uvas cheirosas, e Ambrósio sentia na carne a dor da ausência da amada.  A morte da adolescente continuava misteriosa, como a passagem dos deuses pela terra.

Um dia Ambrósio acordou com um provérbio latejando em seu cérebro: in vino, véritas.
Então pediu para conversar com o administrador.  O mensageiro levou o pedido e trouxe a resposta.: dirija-se à sua ocupação, não temos tempo para lamúrias.

Ambrósio insistiu.  Até que finalmente o administrador cansou-se.  E o recebeu.  Intrigado com o pedido do rapaz, e, verdadeiramente comovido pela paixão clara e latente que dele desprendia, decidiu ajudá-lo em seu intento, não sem adverti-lo que além de dispendioso, o plano poderia não surtir efeito, causando-lhe mais uma frustração.

O rapaz não se deu por vencido.  Aceitaria os riscos.
Saiu da sede do administrador com outros brilhos nos olhos.  Agora sim podia enxergar a beleza da paisagem, a bela ilha em que se abrigara, e embriagar-se com o odor da malvásia, cheirosa como a sua amada.
Naquele dia uma nova modalidade de envelhecimento foi utilizada no processo do fabrico do vinho: vinho canteiro. Apesar de pouco empregado não despertou curiosidade entre os obreiros pois sabiam que o sitema só poderia melhorar a qualidade do vinho.  E o patrão é quem manda, pensaram todos. Também Ambrósio que ansiava pela implantação de seu plano, achava que o patrão introduziaria mudanças para não despertar suspeitas na urdidura de seu plano.
Na verdade, explicou o admisnistrador, esse processo dará ao vinho originalidade e caráter especiais, difíceis de igualar.  E era isso que todos queriam para o vinho da ilha da Madeira.

Um dia, assim como todos, de sol brilhante e mar azul, as amigas d’Ela notaram que nascia uma parreira sobre a sua sepultura. Notaram também que os pequenos brotos possuíam uma forma especial jamais vistos em quaisquer parreiras.

Mas nada comentaram. A amiga que descansasse em paz.
Ambrósio visitava com frequência a última morada de sua amada, e também notou a estranha germinação. Pensou em arrendar aquele pedaço de terra, cumprindo a promessa feita a Ela.

Fantasias da saudade.  A cor da alma não perdera o brilho.
Como um cão farejador, o adolescente vigiava os homens do lugar.  Esperava um olhar traidor, um movimento em falso. Procurava solução para a morte de Ela, esquecendo-se de que a morte não tem explicação.
Naquela noite o mensageiro do administrador avisou a todos que os brindaria com uma grande festa onde o vinho da uva malvásia seria servido à vontade. Todos teriam que comparecer.
Ambrósio sentiu que o plano tivera início.
Vinho à vontade. Alegria à solta. Fatos e anedotas contados abertamente. Todos festejavam o fim da colheita. Alguns ficariam na ilha, arranjariam trabalho e esperariam a próxima colheita. Outros partiriam para novas plagas.
Ambrósio permanecia sóbrio com olhos e ouvidos prestativos. Andava de grupo em grupo esperando uma confissão espontãnea.
Não pensou em ouvir o grupo das meninas. Mas uma fala chamou a sua atenção. Ela era pretensiosa, falava uma delas. Queria todos os homens para si. Até…
Então aproximou-se da amiga íntima de Ela. Não me arrependo do que fiz..
__ E o que você fez?  Diga, diga, acalme meu coração, extingüa meu flagelo.  Conte, conte para todos.
A menina assustada disparou em frases desconexas, está bem, não agüento mais, afoguei-a em bagos de uvas, penetrei aquela garganta com os cachos mais adultos, com as uvas mais formosas.  Mas não esperei por esse desfecho. Juro, juro. Não esperei que se afogasse, não sabia…
Terminado o mistério, restou a exaustão.  A surpresa. O arrependimento de querer saber a verdade.
A noite terminou. A menina receberia seu castigo. Ambrósio sofreria muito mais de amor.

Porém, a parreira estranha nascida de uma sepultura, cresceria e daria frutos tão cheirosos que o seu perfume atravessaria a ilha e chegaria até o continente. Essa Malvásia seria a reprodução d’Ela.  Em cada bago a sua formosura, a sua transparência, a sua virgindade.  Ambrósio seria o vinhateiro, senão o mais feliz, o mais enriquecido. De amor e de fortuna.
Dizem que andou errante pelo Egito, Síria e restante do mundo ensinando a todos o trato da videira e a produção do vinho. Andava em carros puxados por cavalos brancos e ornamentados com ramos de parreira..Usava máscaras de louça, enfeitadas de uvas coloridas. Mulheres cercavam as suas andanças, atraídas pelo cheiro da fruta e pelo dinheiro do amo.Mas o retorno verdadeiro à vida e às origens deu-se na ilha da Madeira, nas terras pioneiras, onde conhecera o amor e a uva mais perfumada do universo. Por esses dois amores daria a vida e encontraria a morte.
Não sabemos se essa história é verdadeira. Mas assim ela é contada em todos os vinhedos.
É mais uma curiosidade que faz do vinho, a bebida de deuses. E os deuses, desde os mais remotos tempos, sabem como atender os desejos dos homens.

Autora: NILZA AMARAL

São Paulo-Brasil

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