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VALISE POÉTICA DOS TÍMIDOS – de NILZA AMARAL – SÃO PAULO – BRASIL

VaLiSe poéTica doS TímidoS

por

NILZA AMARAL

 

Fulgêncio, morador do segundo andar, recorta anúncios de culinária e fotos de sexo explícito, que esconde dentro de uma valise com fechadura metálica, gosta de frango com polenta que come quase todos os dias na mesmice de sua rotineira vida solitária quando se entrega à tarefa de retirar a carne branca de junto dos ossos, misturar com a polenta, e observar o casal que se beija sob a árvore defronte ao prédio, imaginando que gosto teriam aqueles beijos se de polenta ou de frango, pelo motivo óbvio de que Fulgêncio jamais havia beijado uma mulher, pois Fulgêncio tão fora de moda quanto o seu nome, mais feio a cada dia que passa, jamais sentiu a carícia aveludada de um olhar feminino, nunca se aproximou o bastante de uma mulher para sentir o seu perfume, nem experimentou a tortura do amor não correspondido, nem a dor de uma separação, ou o êxtase de uma entrega, visto que Fulgêncio sai de casa “a las cinco de la tarde”, todos os dias para comprar a sua imutável refeição, sem olhar para os lados, quase se enterrando à parede na sua caminhada até o mercado. Porém as noites existem para os tímidos. Catarse. Encontros com os desejos mais escondidos, com as palavras impensadas, com o surrealismo da vida banal de um Fulgêncio qualquer. Nas noites Fulgêncio ousa. Nada de frango com polenta, nada de voyeurismo atrás de cortinas, não, nos imensos espaços da mente de Fulgêncio, desfilam gourmets estrangeiros, comidas exóticas servidas, com a flor da paixão – a tulipa – , sobressaindo rainha no jardim do éden, enfeitando as iguarias servidas no corpo maravilhoso e nu da menina que beija o namorado escondida sob as árvores do jardim de seu prédio, onde o frango com polenta e a valise tentadora o aguarda assim que ele se desliga do seus momentos oníricos.

Imagem: Manet

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Esta entrada foi publicada em 28 junho, 2009 às 1:12 am e está arquivada como crônica, literatura, Literatura Brasileira, literature, semiótica, Valises.  Você pode acompanhar qualquer resposta para esta entrada através do feed RSS 2.0 Você pode deixar uma resposta, ou trackback do seu próprio site.

3 Respostas para “VaLiSe poéTica doS TímidoS”

Maria Helena Vieira Diz:

29 junho, 2009 às 2:54 am

Amiga, que belo presente para fechar uma noite fria, obrigada, beijo, maria Helena

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Isaias Edson Sidney Diz:

29 junho, 2009 às 3:44 pm

Hmm… belo conto, Nilza. Abraço. Isaias.

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maria de lourdes alba Diz:

11 setembro, 2009 às 5:05 pm

maravilhoso, Nilza. Gostei muito. Parabéns

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